cineorly

na periferia da cinelândia

Os melhores/2009

1.Entre Os Muros da Escola/ Laurent Cantet

2. A Fronteira da Alvorada/ Philippe Garrel

3. Amantes/ James Gray

4. Bastardos Inglórios/ Quentin Tarantino

5. Frost/Nixon/ Ron Howard

6. Distante Nós Vamos/ Sam Mendes

7. O Casamento de Rachel/ Jonathan Demme

8. Aconteceu em Woodstock/ Ang Lee

9. Deixe Ela Entrar/ Tomas Alfredson

10. Se beber, não case/ Todd Phillips


Menção honrosa: Acossado/ Jean-Luc Godard

Prêmio Minha Vila Filmo Eu: Brega S/A/ Vladimir Cunha e Gustavo Godinho

Prêmio Medo de Ouro: Distrito 9/ Neill Blomkamp

Prêmio Lencinho de Ouro: Eu Te Amo, Cara/ John Hamburg

Prêmio Melhor Sessão da Tarde Ever: Adventureland/ Greg Mottola

Prêmio Vibe Indie: Paper Heart/ Nicholas Jasenovec

Prẽmio Cinema Barato: A Saga Leona:

1. Leona, a assassina vingativa

2. Leona, a assassina vingativa 2

3. Leona e a Aliança do Mal

Com licença que eu vou pegar meu taxi e ir pra Paris AGORA!

bjonãomeliguem!

Um texto perdido no ano de 2009

É tempo de fechar a casa e fazer um balanço de tudo que aconteceu, e remexendo os arquivos encontrei um texto que escrevi sobre Os Incompreendidos, especialmente para uma sessão da APJCC.

Peço a gentileza aos desaforados que não riam da paixão pelo filme que meu texto transborda. Pedido feito, segue o texto:

Os Incompreendidos | Les Quatre Cent Coups, 1959

Qual crítico não treme um pouco quando recebe a missão de escrever sobre um clássico? Parece inevitável não ser repetitivo, afinal, quantas pessoas já se propuseram a ter uma opinião sobre Os Incompreendidos? Impossível quantificar. Mas não à toa: o primeiro longa de François Truffaut se inscreve numa tradição acusada como fundadora das bases do cinema contemporâneo, a Nouvelle Vague.

Rompendo um pouco com a sisudez de um texto que se pretende crítico, pensemos na coincidência infame com que diretor e ator encarnaram o mesmo papel através de Antoine Doinel, o garoto perdido que vemos na tela. A infâmia pode até aumentar, se abrirmos uma janela subjetiva neste texto para mostrar ao leitor um pouco da minha própria infância solitária, de tardes perdidas em frente à TV e na vizinhança de uma locadora e três salas de cinema através das quais aprendi a vontade de viver para ver todas as coisas que o cinema pudesse mostrar.

Se o vício de cinema salvou Truffaut da incompreensão que o cercava quando jovem, Truffaut também tentou salvar o cinema e disse que dele brotavam obras de arte. Não satisfeito em fazer do diretor um autor em sua conhecida teoria sobre cinema autoral (politique des auteurs), ele resolveu arregaçar as mangas e mostrar como se fazia esse cinema descrito em tantos textos seus publicados na conhecida revista Cahiers Du Cinema. Falando nos Cahiers não se pode deixar passar em branco a influência de André Bazin, ele que foi ao encontro do garoto Truffaut quando este teria o seu próprio cineclube fechado e percebendo a força da paixão cinematográfica que emanava do então garoto, Bazin talvez tenha percebido que nada poderia fazer além de ajudá-lo.

Foi através dessa revista – que atravessou décadas como sinônimo de pensamento crítico renovado, que em meio a rápidas mudanças nos padrões sociais franceses ao longo das décadas de 1950 e 60, viu-se surgir a voz de um grupo de jovens críticos empenhados em apontar a obsolescência dos modelos cinematográficos vigentes. Este período foi denominado pelos jornalistas da época como Nouvelle Vague, expressão que acabou por nomear também a produção dos novos críticos, transformados ao longo da década de 1950 em diretores-autores. Como toda mudança de hábitos e costumes, os principais personagens são encontrados entre a juventude, sempre pujante na tentativa de firmar o tempo presente como seu. Talvez por isso a história do jovem Antoine Doinel expressa em Os Incompreendidos tenha chamado tanta atenção entre público e crítica.

Defendendo a possibilidade de um filme ser a expressão da individualidade autoral de um diretor-artista e inspirado pelo mestre Bazin, que entendia que os cineastas deveriam reforçar as convenções do estilo não na realidade, mas através dela, moldando-a partir de sua subjetividade, Truffaut mesclou realismo e psicologismo ocupando-se de uma história comum. Retratando a conturbada e solitária jornada de um jovem transformando-se em adulto, com todos os dissabores e distrações que a vida numa metrópole proporciona, Truffaut desata os nós de sua própria juventude, na qual ocorrera passar por conflitos muito semelhantes aos de seu personagem, logo identificado como uma espécie de alter-ego do autor. Na procura do ator que encarnaria Doinel, o diretor recebeu a indicação do filho inquieto e transgressor de um roteirista e uma atriz, e Jean-Pierre Léaud já estava pronto para o papel mesmo sem saber.

À época da estréia, Os Incompreendidos levou para as telas uma naturalidade impactante, algo novo na condução de um filme. E há algo realmente inexplicável naquela cena final: Truffaut, a câmera e Jean-Pierre Léaud. É forte como olhar nos olhos daquele garoto e descobrir um turbilhão de dúvidas e a captação de um momento puramente humano que perderia toda a sua luz se fosse ensaiado. É também a possibilidade de entender o que Gilles Deleuze, um outro francês, escreveu a respeito da imagem-tempo, aquela que viria substituir a imagem-movimento do cinema clássico por algo inexplicável. Uma imagem que não contaria mais uma história, mas que provocaria a vidência de algo para além da imagem. Neste caso específico, olhar nos olhos de Jean-Pierre Léaud travestido do personagem Antoine Doinel é como olhar nos olhos de Truffaut e através deles captar a alma de uma genealogia inteira de garotos incompreendidos.

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