30 de novembro 2007 · Tags:clássicos, jodorowsky, midnight movies
Diretor de cinema e teatro, ator, produtor, compositor, escritor, autor teatral, filósofo, humorista, especialista em tarot, um dos criadores do “Teatro do Pânico” e do conceito de “Midnight Movies”, espiritualista e mestre dos quadrinhos. Essas são as ‘qualificações’ de Alejandro Jodorowsky, cuja obra cinematográfica, apesar de não tão vasta, é considerada ainda hoje como uma das mais instigantes e experimentais, fazendo coro com cineastas como John Walters e David Lynch.
Dizem que o vovô do cineasta foi um judeu russo que trocou a Ucrânia pelo Chile, e atravessou os Andes acompanhado de uma mula e de sua Torá. Se isso assim o foi, teria sido possível a Jodorowsky escapar a uma predileção natural pela força do simbolismo? Principalmente o simbolismo mítico, numa mistura de fontes, entre cristãs, judaicas e pagãs; entre heranças e uma realidade lingüística e cultural diferente.
Assim, recebemos em forma de filmes a conjunção destas referências, a busca incessante pela revelação de uma supra-realidade: o que Jodorowsky quer é desafiar o homem comum a experimentar sensações às quais ele normalmente não se permite, partindo assim a um novo estágio, onde o homem entenderá melhor a sua própria natureza, sem as prisões dogmáticas às quais está acostumado a acomodar-se.
Essa é a natureza de A Montanha Sagrada. Esse foi meu primeiro contato com a obra de Ojodoro, aproveitando uma mostra promovida pelo CCBB que em sua fase carioca encerra-se neste final de semana. Apesar de já ter lido alguns artigos e críticas a respeito do autor – que oscilam entre considerá-lo gênio ou um contestador nonsense – desenvolver uma opinião escrita a respeito da experiência única de assistir a um filme seu, ainda mais em tela grande, pareceu um desafio tão interessante quanto necessário.
O cinema de Jodorowsky se mostrou complexo desde seu início: seu segundo filme, El Topo, foi gravado no México e com recursos próprios. Buscando a entrada no mercado norte-americano de cinema, ele tentou em vão vender os direitos deste filme. O problema é que em 1970 esta película não possuía par e os produtores não sabiam como vendê-la. Chegando então nas mãos de um antigo produtor que possuía uma sala de cinema em Nova York, o Cine Elgin, foi feita a proposta de exibirem El Topo nas sessões de meia-noite. Algumas semanas depois a sala não só estava lotada, como filas dobravam a esquina. A partir de então a maioria dos filmes considerados ‘inclassificáveis’ passaram a ser denominados Midnight Movies, exibidos nesse horário não-comercial e criando uma série de fiéis seguidores do gênero. Essa é uma façanha importante sem a qual muitos absurdos maravilhosos do cinema talvez não existissem, vide a importância de um Lynch nos dias de hoje.
Voltemos à Montanha Sagrada:
Numa grande alegoria, com cenas e cortes que vez por outra não se conectam por uma lógica narrativa comum, a ação começa com Jodorowsky – guru numa espécie de rito iniciático, para em seguida sermos apresentados a um homem a quem chamam Ladrão cuja figura lembra a de Jesus Cristo. Ladrão vaga pelas ruas do México quando é crucificado e apedrejado por um grupo de crianças. Nesse momento ele inicia uma verdadeira amizade com um anão que será um dos poucos a acompanhá-lo em sua saga. Partindo para a cidade eles são testemunhas de várias situações, como um episódio em que soldados massacram alguns cidadãos comuns enquanto alguns estão às voltas com prostitutas de todos os tipos, cores e tamanhos. Felizes e sorridentes, um casal de turistas fotografa tudo com grande curiosidade. O tom de crítica é explícito!
Depois de algumas voltas, Ladrão é ‘sequestrado’ por uns tipos que se assemelham a autoridades religiosas, que o carregam e preparam, fazendo dele o molde para várias estátuas de um homem crucificado. Ao acordar e se deparar com várias cópias de si mesmo, Ladrão tem um surto e no meio dele é acolhido pela prostituta-com-um-chipanzé, uma caricatura de Maria Madalena, que a partir daí será sua seguidora fiel.
Ainda vagando, ele encontra uma torre enorme que se ergue até o céu, e resolve escalar para encontrar uma resposta. No topo da torre ele encontra Jodorowsky-Alquimista que resolve prepará-lo e iniciá-lo num grupo de escolhidos que terão acesso a uma aventura em busca da montanha sagrada, na qual terão acesso ao segredo maior da existência. Dentro da torre tudo é simbólico: elementos alquímicos, pops, o yin e o yang, cartas de tarot e o cocô como elemento de expurgo e transformação interior. Tudo são artifícios cabíveis na alegoria de Ojodoro. Os outros escolhidos são também um capítulo à parte, com referências ao absurdo da industrialização e do consumo, da ganância e do materialismo dominantes na sociedade, esses escolhidos se fazem escolher justamente por seus deméritos e ganâncias.
Montado o grupo, eles partem para a viagem final à montanha sagrada. Pelo caminho, provações e tentações os aguardam e mais e mais alegorias se apresentam e se acumulam, até o final metafílmico que está ali justamente para colocar o espectador consciente da ilusão ficcional, jogando com o próprio engendramento da realidade a qual muitos enxergam sob o signo da ficção.
Merece destaque a cena em que Ladrão tenta multiplicar os pães para saciar a fome de um grupo de crianças, ao que é advertido por Jodorowsky – guru, que lhe mostra a pequena guerra em que se transformaria o acúmulo dos pães multiplicados.
Sarcástico, escatológico, filosófico e mimético são alguns dos adjetivos possíveis de A Montanha Sagrada. Definitivamente, um clássico que deve ser assistido.
Indicações ou para saber mais:
Consulte o Papa!
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Uma curiosidade.
29 de novembro 2007 · Tags:adrien brody, hotel chevalier, jason schwartzman, owen wilson, wes anderson
A eterna busca dos seres humanos, por Wes Anderson.
Wes Anderson acumula opiniões contraditórias a respeito de si próprio: quem o idolatra pode mesmo exagerar chamando-o de nada menos que gênio, enquanto seus algozes se apressam em enterrar seu cinema, que muitos julgam já estar gasto. Ele tem duas coisas que me agradam muito: a ironia dos nerds e um bom olhar para a excentricidade, que se estende de seus personagens aos cenários.
Dizem que desde Os Excêntricos Tenenbaums Anderson vem se repetindo e tudo gira em torno de famílias estranhas. As famílias e as participações do ator Bill Murray nas tramas do diretor/roteirista podem mesmo dar motivos a essas acusações. Mas devo dizer que opiniões como essa me parecem um pouco preguiçosas, pois para alegar que o cinema do diretor do coloridamente esquisito A Vida Marinha com Steve Zissou (E as engraçadas versões das músicas de Bowie que fez o brasileiro Seu Jorge para a trilha desse filme foram o top nos meus fones de ouvido por meses) se resume a algumas fórmulas e a parceria com Owen Wilson é ler de seus filmes apenas a sinopse. A César o que é dele!
O projeto de Viagem A Darjeeling surgiu de uma obstinação do diretor, que depois de filmar num barco, se viu tentado a filmar num trem. As cenas gravadas nos corredores são bem legais, com os personagens algumas vezes amontoados naquele estreito lugar de passagem. E a decoração do Darjeeling Limited é estonteante, com muitas cores, excentricidade e um certo luxo decadente que condiz com a Índia, país retratado na história.
Nesse filme o roteiro é dividido entre Anderson, Roman Coppola e Jason Schwartzman. Os 3 partiram para a Índia e, segundo contam, algumas das cenas foram inspiradas pelas aventuras que eles acumularam por lá, no choque cultural que parece inevitável. E Schwartzman ganhou também uma espécie de prêmio: Há um curta metragem de 12 minutos chamado Hotel Chevalier em que Jason interpreta Jack Whitman, seu personagem em Viagem A Darjeeling. Em uma entrevista coletiva que sintonizei no YouTube, Schwartzman diz que adorou a experiência de trazer para a gravação de um longa metragem alguma experimentação prévia de seu personagem. Em Hotel Chevalier, Jack está num hotel em Paris quando recebe o telefonema de sua ex-namorada (Natalie Portman), que diz estar na cidade e disposta a encontrá-lo. Ele concorda que ela vá a seu encontro e durante o tempo da espera o vemos escolher um música no IPod, arrumar a bagunça do quarto e preparar um banho de banheira. Nos créditos do curta vemos que ele é denominado como “A Primeira Parte de Viagem A Darjeeling”, o que faz uma ligação ‘oficial’ entre ambos. Hotel Chevalier atiçou a curiosidade de muitos por apresentar imagens generosas do corpo nu de Natalie Portman. O mais legal é notar os fios que ligam o curta ao longa: a mala de Jack (Aliás, as malas do filme não passam despercebidas devido a beleza, e foram idealizadas pela marca Louis Vuitton – by Marc Jacobs), assim como o diálogo final entre os personagens e o roupão de banho que Jack usa durante o longa, que é uma ‘herança’ do hotel.
A sinopse do longa: Separados desde a morte do pai há um ano e desconhecendo o paradeiro da mãe, os irmãos Whitman reúnem-se numa viagem de trem organizada pelo mais velho, Francis (Owen Wilson), que depois de sofrer um grave acidente se vê compelido a buscar o reencontro com os irmãos. O mais novo, Jack (Jason Schwartzman), é escritor e a cada parada do trem entra na caixa de mensagens telefônicas da ex-namorada, pois tem sua senha e quer manter-se informado sobre sua vida sem ele. O irmão do meio é Peter (Adrien Brody) que aparece no encontro com vários objetos do pai, como seus óculos e as navalhas de barbear, mostrando que ainda não superou a perda, além de estar aflito pelo nascimento de seu primeiro filho. Eles partem nessa viagem confusa, cheia de preparo e minúcias que ajudam a torná-la falha, buscando alguma experiência religiosa que além de reunificar a família, lhes traga algum conforto espiritual ou mesmo lhes mostre um caminho a seguir.
Francis reproduz um comportamento paterno para como seus irmãos, seja escolhendo os pratos que eles gostariam de comer ou guardando com ele os passaportes de todos, para que ninguém resolva abandonar a viagem sem que o objetivo seja concluído. Inclusive, Francis mantém a bordo do trem um assistente que tem como função fazer contatos e organizar a programação dos irmãos, que recebem fichas impressas e plastificadas com os itinerários da viagem. Até os rituais previstos tem suas ‘regras’ previamente impressas nesta ficha, o que descaracteriza a busca espiritual, que deve acontecer de dentro pra fora, e não o contrário. E ficamos perdidos durante uma boa parte do filme, tentando entender o que Francis pretende com aquilo. Acontece que o objetivo real da viagem se revela apenas lá pelo meio do filme.
E essa é uma das linhas seguidas por Viagem A Darjeeling, a busca de alguma verdade maior que dê sentido às vidas aparentemente desestruturadas dos irmãos. E a verdade que Francis procura nada tem a ver com religião e sim com sua mãe, Patricia (Anjelica Huston), que vive reclusa num mosteiro indiano, afastada não só dos filhos como de um maior contato com o mundo exterior. Quando Jack e Peter descobrem que estão sendo levados para um encontro com sua mãe e que na verdade ela enviou uma mensagem pedindo que eles não a visitem, a coisa toda já está perdida. Devido às muitas trapalhadas que eles acumulam durante a permanência no trem – incluindo um affair entre Jack e a bonita tripulante Rita (Amara Karan, que faz sua estréia no cinema) -, os irmãos são deixados no meio do nada com 11 malas, uma impressora e uma máquina plastificadora. A partir daí eles iniciam uma jornada realmente desconhecida, com pontos altos que os ajudarão a alcançar um objetivo que tinha ficado em segundo plano: a união entre os irmãos.
Os 3 personagens principais trazem marcas visuais que os diferenciam: o Francis de Owen Wilson ainda tem o rosto enfaixado devido ao acidente, o que lhe confere uma aparência esquisita. Já Peter aparece em quase todas as ocasiões usando os óculos escuros do pai, seja noite ou dia. E Jack, que durante toda a ação aparece bem vestido, porém descalço, parece dizer que ainda não conseguiu sair do quarto do Hotel Chevalier onde ele já aparece sem sapatos. Esses detalhes nos ajudam a marcar a diferença entre os irmãos assim como apontam o maior de seus defeitos: a fragilidade.
As belíssimas locações indianas mostram a urbanicidade própria desse país, alternando a luxuosidade (que geralmente está ligada a religião) e a extrema pobreza. Mas Anderson se preocupa em passar uma bela imagem da Índia, aproveitando um diálogo aparentemente desimportante para deixar que o personagem Peter diga que jamais esquecerá o gostoso cheiro daquele país.
E porque devemos assistir Viagem a Darjeeling? Para acompanhar o desenvolvimento de mais uma trama insólita criada por Anderson; pelo impacto visual que o filme nos traz, seja com os cenários ou com a simplicidade do dia-a-dia indiano e pela boa interação que ocorre entre Wilson, Brody e Schwartzman que nos divertem interpretando os atrapalhados irmãos Whitman.
Compre sua passagem (ela se paga logo nos primeiros minutos do filme, não se preocupe), tome seu assento e aproveite esta Viagem A Darjeeling!