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na periferia da cinelândia

Archive for novembro 29, 2007

The Darjeeling Limited, 2007 (Viagem A Darjeeling)

A eterna busca dos seres humanos, por Wes Anderson.

Wes Anderson acumula opiniões contraditórias a respeito de si próprio: quem o idolatra pode mesmo exagerar chamando-o de nada menos que gênio, enquanto seus algozes se apressam em enterrar seu cinema, que muitos julgam já estar gasto. Ele tem duas coisas que me agradam muito: a ironia dos nerds e um bom olhar para a excentricidade, que se estende de seus personagens aos cenários.

Dizem que desde Os Excêntricos Tenenbaums Anderson vem se repetindo e tudo gira em torno de famílias estranhas. As famílias e as participações do ator Bill Murray nas tramas do diretor/roteirista podem mesmo dar motivos a essas acusações. Mas devo dizer que opiniões como essa me parecem um pouco preguiçosas, pois para alegar que o cinema do diretor do coloridamente esquisito A Vida Marinha com Steve Zissou (E as engraçadas versões das músicas de Bowie que fez o brasileiro Seu Jorge para a trilha desse filme foram o top nos meus fones de ouvido por meses) se resume a algumas fórmulas e a parceria com Owen Wilson é ler de seus filmes apenas a sinopse. A César o que é dele!

O projeto de Viagem A Darjeeling surgiu de uma obstinação do diretor, que depois de filmar num barco, se viu tentado a filmar num trem. As cenas gravadas nos corredores são bem legais, com os personagens algumas vezes amontoados naquele estreito lugar de passagem. E a decoração do Darjeeling Limited é estonteante, com muitas cores, excentricidade e um certo luxo decadente que condiz com a Índia, país retratado na história.

Nesse filme o roteiro é dividido entre Anderson, Roman Coppola e Jason Schwartzman. Os 3 partiram para a Índia e, segundo contam, algumas das cenas foram inspiradas pelas aventuras que eles acumularam por lá, no choque cultural que parece inevitável. E Schwartzman ganhou também uma espécie de prêmio: Há um curta metragem de 12 minutos chamado Hotel Chevalier em que Jason interpreta Jack Whitman, seu personagem em Viagem A Darjeeling. Em uma entrevista coletiva que sintonizei no YouTube, Schwartzman diz que adorou a experiência de trazer para a gravação de um longa metragem alguma experimentação prévia de seu personagem. Em Hotel Chevalier, Jack está num hotel em Paris quando recebe o telefonema de sua ex-namorada (Natalie Portman), que diz estar na cidade e disposta a encontrá-lo. Ele concorda que ela vá a seu encontro e durante o tempo da espera o vemos escolher um música no IPod, arrumar a bagunça do quarto e preparar um banho de banheira. Nos créditos do curta vemos que ele é denominado como “A Primeira Parte de Viagem A Darjeeling”, o que faz uma ligação ‘oficial’ entre ambos. Hotel Chevalier atiçou a curiosidade de muitos por apresentar imagens generosas do corpo nu de Natalie Portman. O mais legal é notar os fios que ligam o curta ao longa: a mala de Jack (Aliás, as malas do filme não passam despercebidas devido a beleza, e foram idealizadas pela marca Louis Vuitton – by Marc Jacobs), assim como o diálogo final entre os personagens e o roupão de banho que Jack usa durante o longa, que é uma ‘herança’ do hotel.

A sinopse do longa: Separados desde a morte do pai há um ano e desconhecendo o paradeiro da mãe, os irmãos Whitman reúnem-se numa viagem de trem organizada pelo mais velho, Francis (Owen Wilson), que depois de sofrer um grave acidente se vê compelido a buscar o reencontro com os irmãos. O mais novo, Jack (Jason Schwartzman), é escritor e a cada parada do trem entra na caixa de mensagens telefônicas da ex-namorada, pois tem sua senha e quer manter-se informado sobre sua vida sem ele. O irmão do meio é Peter (Adrien Brody) que aparece no encontro com vários objetos do pai, como seus óculos e as navalhas de barbear, mostrando que ainda não superou a perda, além de estar aflito pelo nascimento de seu primeiro filho. Eles partem nessa viagem confusa, cheia de preparo e minúcias que ajudam a torná-la falha, buscando alguma experiência religiosa que além de reunificar a família, lhes traga algum conforto espiritual ou mesmo lhes mostre um caminho a seguir.

Francis reproduz um comportamento paterno para como seus irmãos, seja escolhendo os pratos que eles gostariam de comer ou guardando com ele os passaportes de todos, para que ninguém resolva abandonar a viagem sem que o objetivo seja concluído. Inclusive, Francis mantém a bordo do trem um assistente que tem como função fazer contatos e organizar a programação dos irmãos, que recebem fichas impressas e plastificadas com os itinerários da viagem. Até os rituais previstos tem suas ‘regras’ previamente impressas nesta ficha, o que descaracteriza a busca espiritual, que deve acontecer de dentro pra fora, e não o contrário. E ficamos perdidos durante uma boa parte do filme, tentando entender o que Francis pretende com aquilo. Acontece que o objetivo real da viagem se revela apenas lá pelo meio do filme.

E essa é uma das linhas seguidas por Viagem A Darjeeling, a busca de alguma verdade maior que dê sentido às vidas aparentemente desestruturadas dos irmãos. E a verdade que Francis procura nada tem a ver com religião e sim com sua mãe, Patricia (Anjelica Huston), que vive reclusa num mosteiro indiano, afastada não só dos filhos como de um maior contato com o mundo exterior. Quando Jack e Peter descobrem que estão sendo levados para um encontro com sua mãe e que na verdade ela enviou uma mensagem pedindo que eles não a visitem, a coisa toda já está perdida. Devido às muitas trapalhadas que eles acumulam durante a permanência no trem – incluindo um affair entre Jack e a bonita tripulante Rita (Amara Karan, que faz sua estréia no cinema) -, os irmãos são deixados no meio do nada com 11 malas, uma impressora e uma máquina plastificadora. A partir daí eles iniciam uma jornada realmente desconhecida, com pontos altos que os ajudarão a alcançar um objetivo que tinha ficado em segundo plano: a união entre os irmãos.

Os 3 personagens principais trazem marcas visuais que os diferenciam: o Francis de Owen Wilson ainda tem o rosto enfaixado devido ao acidente, o que lhe confere uma aparência esquisita. Já Peter aparece em quase todas as ocasiões usando os óculos escuros do pai, seja noite ou dia. E Jack, que durante toda a ação aparece bem vestido, porém descalço, parece dizer que ainda não conseguiu sair do quarto do Hotel Chevalier onde ele já aparece sem sapatos. Esses detalhes nos ajudam a marcar a diferença entre os irmãos assim como apontam o maior de seus defeitos: a fragilidade.

As belíssimas locações indianas mostram a urbanicidade própria desse país, alternando a luxuosidade (que geralmente está ligada a religião) e a extrema pobreza. Mas Anderson se preocupa em passar uma bela imagem da Índia, aproveitando um diálogo aparentemente desimportante para deixar que o personagem Peter diga que jamais esquecerá o gostoso cheiro daquele país.

E porque devemos assistir Viagem a Darjeeling? Para acompanhar o desenvolvimento de mais uma trama insólita criada por Anderson; pelo impacto visual que o filme nos traz, seja com os cenários ou com a simplicidade do dia-a-dia indiano e pela boa interação que ocorre entre Wilson, Brody e Schwartzman que nos divertem interpretando os atrapalhados irmãos Whitman.

Compre sua passagem (ela se paga logo nos primeiros minutos do filme, não se preocupe), tome seu assento e aproveite esta Viagem A Darjeeling!

A Via Láctea, 2007

Porque da explosão surgiu não só o cinema, mas a música, o teatro e a literatura.

Chateada por ter sido atrasada pela cidade, que me fez perder alguns minutos do filme em meio a um engarrafamento sem motivo, lá pelas tantas vejo que Heitor (Marco Ricca – que também aparece como produtor) está separado de Júlia (Alice Braga) por um mar de olhos-faróis, numa cidade chamada São Paulo – que no filme interpreta o papel de si mesma, e sem dúvida exerce um papel. Pensei então que alguma sincronicidade fez com que eu, antes mesmo de saber, estivesse no lugar do personagem, pra depois entender o que se passa. É porque quem vive na Via Láctea sabe que é só um dos zilhões de fragmentos flutuantes que vão e voltam, em círculos, sendo personagens de toda essa confusão.

Então pulemos a parte em que obviamente me identifiquei com a história.

Lina Chamie, que teve seu primeiro longa indicado para a mostra paralela de Cannes (Tônica Dominante, 2000) usa com notável sabedoria a poética para contar a história comum de mais um amor que começa e termina. E a poética não é unicamente cinematográfica: Lina Chamie compõe a história de Heitor e Júlia embalada por uma música quase-personagem de tão bem encaixada, de tão ativa na construção da emoção de cada cena. Mas não seria de se estranhar, já que Lina tem formação musical acadêmica. Ela envolve a trama com a música de Satie (compositor e pianista francês, morto na década de 1920), Mozart e Gil, pois que a música parece fazer exatamente isso em A Via Láctea: envolver a atmosfera do filme como uma redoma, de onde a ação escapole ao explodir.

Aliás, a diretora forja seu filme usando também o teatro e a literatura, de maneiras convencionais e não-convencionais. O teatro vem com a profissão da personagem Júlia, que é atriz e na história aparece como uma das bacantes de uma peça de mesmo nome (As Bacantes), quando encontra Heitor. E isso é um dos elementos que nos ajudam a compreender as diferenças que existem nas personalidades do casal. Júlia é mais livre; Heitor mais apegado.

A literatura também ocupa um espaço na trama. Um espaço delicado, às vezes preenchendo-a de narrativa, quando Heitor começa a expressar seus sentimentos em forma de poemas. Ou quando em devaneios dele, vemos Júlia ou a mãe de Heitor (Mariana Lima), recitando poemas de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e também do pai da cineasta, Mario Chamie. O literário também se expressa através da cidade-personagem, quando no caminho entre o amado e seu amor, frases são lidas em paredes, em túneis, em outdoors, como se o todo estivesse concatenado à história e os sentimentos dos personagens de alguma forma ‘vazassem’ e contaminasse todo o caminho, todo o cenário.

E dentro desse universo de subjetividade que a história se constrói: Heitor sofre grande abalo ao receber um telefonema de sua namorada Júlia, que neste instante termina a relação entre os dois. A partir daí, ele sai tentando encontrá-la e o acompanhamos nesse trajeto, que é circular e confuso, onde ele se aproxima e se distancia; onde o tempo vai e volta; onde Júlia é o alvo, mas é a cidade quem manipula os caminhos.

Nessa busca ele conversa consigo mesmo e com o locutor do rádio. Seu caminho é entrecortado por momentos dos dois, como a cena da livraria em que o casal brinca de esconder-se e relevar-se entre as estantes, em mais uma metáfora. Ou no telhado, em que eles parecem se sobrepor à cidade uma única vez.

Em meio a essa narrativa delicada, a câmera nos leva ao banco de passageiros, pra dentro da ambulância. É uma câmera intrusiva que nos faz cúmplices de tudo. São ângulos fechados de câmera na mão, em que até a cidade é vista de ângulos diferentes e pequenos. Em contrapartida paisagens e galáxias em formação aliviam o olhar em algumas cenas.

Toda a ação parece desalinhada e Heitor parece um louco obcecado por encontrar a namorada. Um louco que esbarra em uma criança de rua que sabe que Júlia ainda não ligou para aquele outro homem. Que vê seu rival a alguns metros, no mesmo engarrafamento, comprando flores pra quem? ‘Porque o vendedor de flores falou com ele e não comigo?’ E o assaltante nem quer lhe assaltar: ele vem só para lhe abrir os olhos e lhe expor sua verdadeira e trágica situação, mas leva o relógio para não deixar tudo tão óbvio. A bateria do celular acaba e ele se perde. E parece que estamos diante do pior dia na vida de alguém. E é.

Até os letreiros finais são bonitos e o filme é de todos.

E sim, no final Júlia e Heitor se encontram. Mas já é o final pra nós e pra eles, principalmente para Heitor. Aliás, Marco Ricca numa boa atuação, principalmente nos momentos de raiva, é um outro motivo pra se assistir A Via Láctea, juntamente com todo o lirismo do filme.

Excelente produção. Boas atuações. Fotografia difícil e instigante. Direção e roteiro, este último divido entre Lina e Aleksei Abib, compõem um filme lírico, poético e delicado.

Um filme sobre um casal, uma cidade, o amor, e a morte.

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