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na periferia da cinelândia

Archive for janeiro, 2008

Paranoid Park, 2007

Gus Van Sant continua tentando entender os jovens de agora através de seus silêncios.

Como pessoa que pensa e, logo, existe, pensei dia desses sobre a utilidade social do cinema ou a importância dessa ferramenta para além do entretenimento. A conclusão a qual cheguei pode ser senso comum e já ter sido escrita em diversos livros e ensaios, mas até aquele momento de minha vida foi a primeira vez que ela me surgiu, assim, tão claramente. As ciências humanas são inevitavelmente subjetivas pela própria constituição do objeto que pretende investigar e não há maneira de retirar-se um pedaço da epiderme social e analisá-la ao microscópio, há? Ok, mas o que isso tem a ver com Paranoid Park? Só mais um parágrafo e vocês irão entender.

O cinema consegue capturar pedaços da realidade – mesmo que seja uma realidade forjada, teatral – e sentar na sala escura e deixar-se absorver por aquelas imagens é como olhar partes do real através de um filtro menor,um microscópio talvez; é a chance de refletir a respeito daquele tema estando de fora daquela ação, mantendo assim um distanciamento sadio entre observador e observado. É claro, nem todo o cinema é assim, nem todos os filmes se propõem uma pergunta a ser respondida a partir da reflexão sobre sua história. Mas Paranoid Park também não é uma simples peça de entretenimento.

Colocados lado a lado, Elefante e Paranoid Park parecem pertencer a um mesmo universo temático: o que há de errado com a juventude norte-americana de agora? E nisso alguns filmes de Harmony Korine – como Kids e Gummo – podem ser catalogados com a mesma etiqueta. E pelo que consigo extrair desses quatro filmes, há vários motivos pra se preocupar, até porque há décadas essa mesma juventude dos EUA tem servido de modelo para todo jovem com acesso a televisão, internet e cinema.

Alex (Gabe Nevins) tem 16 anos e vive num subúrbio próximo a Nova Yorque. Seus pais estão em processo de separação e ele precisa demonstrar tranqüilidade quanto a isso, diferentemente de seu irmão de 13 anos que parece não estar suportando a situação. Ter uma linda namorada que é líder de torcida (Taylor Momsen) ao invés de ser o ponto positivo na vida dele, demonstra-se como mais um problema. Andar de skate é sua válvula de escape. Tanto dele como de muitos outros garotos e garotas. Alguns deles chegam a criar um pequeno e ilegal paraíso do skate, o Paranoid Park. Perto das linhas de trem, num espaço com tubos e armações de concreto abandonados, eles montam um espaço que pode ser bem entendido se levarmos em conta o conceito de TAZ – ou Zona Autônoma Temporária – criado por Hakim Bey: um lugar com propósito definido e com leis próprias. Leis essas que não estão catalogadas no código penal ou civil. Leis feitas e válidas apenas dentro dos limites do parque.

É preciso mais que habilidade para pertencer ao grupo dos freqüentadores assíduos do parque; é preciso uma atitude que beira o niilismo. E isso agrada Alex, que timidamente começa a dispensar programas com a namorada e até com o melhor amigo, Jared (Jake Miller), para tentar pertencer àquele lugar. E é nesse processo que se amarra o maior nó da trama.

Gus Van Sant pega um caminho pouco convencional para contar a história de Paranoid, pois além de embaralhar a linha temporal da trama colocando o começo no meio e mostrando no final aquilo que provavelmente ficaria por conta de nossa imaginação, ele quebra a lógica do suspense comum desvendando o grande mistério muito antes do fim. E põe a responsabilidade disso no personagem/narrador, que vai contando o que aconteceu da maneira que vai lembrando.

Ponto interessante também é como ‘ouvir’ a história sendo contada através de um narrador que pouco fala e que resolve escrever o que aconteceu, sendo que Van Sant não se utiliza daquela saída fácil de pôr a voz do narrador em off pra nos contar o que está sendo escrito. Alex escreve e nós nunca leremos sua carta e tampouco saberemos realmente o que se passou. O que temos são as imagens (material por excelência do cinema?). Nesse caso, o que as imagens sugerem são apenas uma parte do que aconteceu.

Algumas cenas chamam a atenção, como quando Alex vem andando na ponte e ouvimos as várias vozes que saem dele num momento de desespero e por alguns segundos ficamos confusos tentando entender com quem ele está falando ou quem está falando com ele. Os rolês de skate dentro e fora do parque embelezam-se pela utilização da câmera lenta ou pela idéia de terem sido gravadas por câmeras caseiras, com os garotos agindo tão naturalmente quanto possível. Legal também foi reconhecer num diálogo entre Alex e seu irmãozinho que eles conversam sobre cenas de Napoleon Dynamite, um filme que através da sátira critica o mesmo vazio da juventude norte-americana que Gus parece querer entender. Bom também é reconhecer a boa mão de Van Sant com sua inconfundível sensibilidade em dirigir uma película.

Paranoid Park se constitui como crítica de viés mais reflexivo e nem por isso se esquece da estética cinematográfica em detrimento do discurso. Une as duas questões de maneira competente.

Encerro por aqui a minha análise para não estragar a surpresa de assistir ao filme e reconhecer esses pontos que apontei, além de muitos outros que me escaparam. Uma estória que emociona porque parece tão próxima que é quase possível tocá-la. Ali na esquina. Na casa ao lado. Na escola do bairro. Na televisão, na internet e no cinema.

I Am Legend, 2007

A cena mais cara da história de Nova Iorque + marketing no Second Life + Will Smith: Outro sucesso de bilheteria do cinema norte-americano sobre a catástrofe humana, dessa vez com uma pequena participação brasileira.

 

O s norte-americanos parecem tão certos de que uma catástrofe de proporções mundiais  será desencadeada a partir de Nova Iorque que vez por outra  somos contemplados com filmes dessa temática. Os problemas do mundo já foram culpa dos comunistas travestidos em ETs, mas ultimamente o que desencadeia as catástrofes é a irresponsabilidade humana, como em Um Dia Depois de Amanhã cujos efeitos do Aquecimento Global geram mudanças climáticas tão bruscas que o planeta passa por uma nova era glacial.

Eu Sou A Lenda é baseado no livro homônimo de 1954 escrito por Richard Matheson e já teve duas outras produções cinematográficas inspiradas em sua história: Mortos Que Matam, de 1964 e A Última Esperança da Terra, de 1971. O primeiro protagonizado por Vincent Price e o segundo por Charlton Heston.

Na versão de 2007 vemos uma cientista (participação de Emma Thompson) que pensa estar produzindo a cura para o câncer desenvolver um vírus apocalíptico que em 4 anos devasta não só a cidade de Nova Iorque (que na trama do livro era Los Angeles) como provavelmente o mundo inteiro. E ninguém melhor pra salvar o mundo como alguém com alguma experiência, certo? Para isso recrutaram Will Smith para o papel de Robert Neville, cientista militar que acaba aceitando o desafio de buscar um antídoto para o vírus, pois afinal de contas ele parece imune, já que sobreviveu. Assim ele aparece em sua rotina como único habitante da cidade e desenvolvendo várias estratégias para não enlouquecer de solidão. Tem como companhia fiel uma cadela muito esperta e alguns manequins, que ele veste e deixa em lugares que ainda freqüenta, como a locadora de filmes. Logo de cara percebemos que apesar de ser o único ali, alguma coisa está muito fora da ordem e faz com que ele carregue armamento pesado e produtos químicos a toda parte que vá, assim como respeitar com muito rigor um toque de recolher auto-imposto que envolve o enclausurmento em sua casa assim que o sol desaparece. Quem pensar em zumbis ou vampiros ganha um doce.

Vemo-lo arrumando algumas cobaias para as várias versões do antídoto que tenta desenvolver e seus fracassos. Ele também rastreia áreas, faz anotações, recolhe mantimentos e assiste a telejornais antigos durante o almoço. E através de uma freqüência de rádio transmite incansavelmente um aviso para tentar encontrar outros sobreviventes.

No começo você não os vê, depois acha que os zumbis-vampiros são completamente tapados, e mais adiante percebe que eles têm um líder pensante que arruma algumas armadilhas para Neville e consegue ser irônico, o que nos faz pensar que ele ainda guarda algo de humano afinal. E os conflitos vão crescendo, crescendo, e se desenvolvendo até que Neville tem um ataque de burrice e estupidez e… Assim é que Anna aparece na trama, interpretada pela brasileira Alice Braga. Ela ouviu a transmissão de rádio e chegou na hora certa e com várias idéias sobre comunidades de sobreviventes e sobre levar Neville pra lá. Mas todos os pequenos conflitos são eclipsados PELO CONFRONTO FINAL! Isso mesmo, em garrafais, bravo e heróico como todo blockbuster.

Fim da história e início da análise:

Pelo que descobri o projeto de filmagem de Eu Sou A Lenda se arrastou por 13 anos nos escritórios da Warner Bros, a partir de 1994 quando eles conseguiram os direitos sobre a obra de Matheson. Daí começaram as negociações e vários nomes surgiram, como Ridley Scott para a direção, Arnold Schwarzenegger, Tom Cruise e Michael Douglas para protagonista. O principal entrave era mesmo o orçamento grandioso, como podemos perceber pelos cinco milhões de dólares gastos em única cena, a mais cara já registrada na cidade de Nova Iorque, que como é sabido já foi palco de outras produções vultosas. Algo envolvendo a interdição de ruas e algumas áreas ou prédios da cidade foi o motivo da cifra. Como novidade na promoção do filme, um jogo referente a ele foi lançado dentro do Second Life, mas não só isso o liga a ‘era digital’: em uma cena, Neville aparece fazendo o que seria o seu depoimento diário sobre a busca do antídoto em um vídeo de qualidade semelhante aos vídeos ‘caseiros’ que vemos no YouTube.

 

Pensando agora nas atuações, é verdade que não vemos aquele Will Smith engraçado, mas também não vemos outro cara senão aquele de Eu, Robô: A arrogância latente e cega de quem se acha capaz de salvar o mundo ou aquele sofrimento por ter que sacrificar alguém que ama só me convencem de que Smith reinterpreta vez por outra o mesmo personagem.

Alice Braga tem um papel pequeno, mas consegue entrar e sair deixando a impressão de dever cumprido. Com um sotaque quase imperceptível ela demonstra bastante naturalidade em sua interpretação. E apesar de não ter tido espaço para desenvolver melhor a personagem na trama, ganhou elogios da revista Variety e aparecerá em 2008 nas telas em mais algumas produções internacionais, inclusive dividindo um set com Rodrigo Santoro.

Os efeitos especiais do filme tem sido muito elogiados, coisa que na minha opinião estritamente pessoal (sim, é importante ressaltar a pessoalidade dessa minha opinião pois sei que muita gente discorda disso) tem tornado-se cada dia menos complexo de se realizar, ao passo que traz para a trama a explicitação de que aquilo é um ato de ficção, o que dificulta minha submersão na história.

Antes que esqueça de citar o diretor, Francis Lawrence – conhecido por dirigir Constantine – traz alguns pequenos bons momentos que escapam da fórmula, mas ainda assim tem sua ação ofuscada pelos clichês que parecem vir embutidos na essência da trama ou no peso do histórico de filmes correlacionados a esse.

Minha impressão final foi o de estar vendo o novo episódio de um antigo seriado sci-fi que foi repaginado pra que os fiéis espectadores do gênero possam vibrar com um produto novo, e para que algumas pessoas ganhem dinheiro, nada mais.

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