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na periferia da cinelândia

Archive for janeiro 24, 2008

I Am Legend, 2007

A cena mais cara da história de Nova Iorque + marketing no Second Life + Will Smith: Outro sucesso de bilheteria do cinema norte-americano sobre a catástrofe humana, dessa vez com uma pequena participação brasileira.

 

O s norte-americanos parecem tão certos de que uma catástrofe de proporções mundiais  será desencadeada a partir de Nova Iorque que vez por outra  somos contemplados com filmes dessa temática. Os problemas do mundo já foram culpa dos comunistas travestidos em ETs, mas ultimamente o que desencadeia as catástrofes é a irresponsabilidade humana, como em Um Dia Depois de Amanhã cujos efeitos do Aquecimento Global geram mudanças climáticas tão bruscas que o planeta passa por uma nova era glacial.

Eu Sou A Lenda é baseado no livro homônimo de 1954 escrito por Richard Matheson e já teve duas outras produções cinematográficas inspiradas em sua história: Mortos Que Matam, de 1964 e A Última Esperança da Terra, de 1971. O primeiro protagonizado por Vincent Price e o segundo por Charlton Heston.

Na versão de 2007 vemos uma cientista (participação de Emma Thompson) que pensa estar produzindo a cura para o câncer desenvolver um vírus apocalíptico que em 4 anos devasta não só a cidade de Nova Iorque (que na trama do livro era Los Angeles) como provavelmente o mundo inteiro. E ninguém melhor pra salvar o mundo como alguém com alguma experiência, certo? Para isso recrutaram Will Smith para o papel de Robert Neville, cientista militar que acaba aceitando o desafio de buscar um antídoto para o vírus, pois afinal de contas ele parece imune, já que sobreviveu. Assim ele aparece em sua rotina como único habitante da cidade e desenvolvendo várias estratégias para não enlouquecer de solidão. Tem como companhia fiel uma cadela muito esperta e alguns manequins, que ele veste e deixa em lugares que ainda freqüenta, como a locadora de filmes. Logo de cara percebemos que apesar de ser o único ali, alguma coisa está muito fora da ordem e faz com que ele carregue armamento pesado e produtos químicos a toda parte que vá, assim como respeitar com muito rigor um toque de recolher auto-imposto que envolve o enclausurmento em sua casa assim que o sol desaparece. Quem pensar em zumbis ou vampiros ganha um doce.

Vemo-lo arrumando algumas cobaias para as várias versões do antídoto que tenta desenvolver e seus fracassos. Ele também rastreia áreas, faz anotações, recolhe mantimentos e assiste a telejornais antigos durante o almoço. E através de uma freqüência de rádio transmite incansavelmente um aviso para tentar encontrar outros sobreviventes.

No começo você não os vê, depois acha que os zumbis-vampiros são completamente tapados, e mais adiante percebe que eles têm um líder pensante que arruma algumas armadilhas para Neville e consegue ser irônico, o que nos faz pensar que ele ainda guarda algo de humano afinal. E os conflitos vão crescendo, crescendo, e se desenvolvendo até que Neville tem um ataque de burrice e estupidez e… Assim é que Anna aparece na trama, interpretada pela brasileira Alice Braga. Ela ouviu a transmissão de rádio e chegou na hora certa e com várias idéias sobre comunidades de sobreviventes e sobre levar Neville pra lá. Mas todos os pequenos conflitos são eclipsados PELO CONFRONTO FINAL! Isso mesmo, em garrafais, bravo e heróico como todo blockbuster.

Fim da história e início da análise:

Pelo que descobri o projeto de filmagem de Eu Sou A Lenda se arrastou por 13 anos nos escritórios da Warner Bros, a partir de 1994 quando eles conseguiram os direitos sobre a obra de Matheson. Daí começaram as negociações e vários nomes surgiram, como Ridley Scott para a direção, Arnold Schwarzenegger, Tom Cruise e Michael Douglas para protagonista. O principal entrave era mesmo o orçamento grandioso, como podemos perceber pelos cinco milhões de dólares gastos em única cena, a mais cara já registrada na cidade de Nova Iorque, que como é sabido já foi palco de outras produções vultosas. Algo envolvendo a interdição de ruas e algumas áreas ou prédios da cidade foi o motivo da cifra. Como novidade na promoção do filme, um jogo referente a ele foi lançado dentro do Second Life, mas não só isso o liga a ‘era digital’: em uma cena, Neville aparece fazendo o que seria o seu depoimento diário sobre a busca do antídoto em um vídeo de qualidade semelhante aos vídeos ‘caseiros’ que vemos no YouTube.

 

Pensando agora nas atuações, é verdade que não vemos aquele Will Smith engraçado, mas também não vemos outro cara senão aquele de Eu, Robô: A arrogância latente e cega de quem se acha capaz de salvar o mundo ou aquele sofrimento por ter que sacrificar alguém que ama só me convencem de que Smith reinterpreta vez por outra o mesmo personagem.

Alice Braga tem um papel pequeno, mas consegue entrar e sair deixando a impressão de dever cumprido. Com um sotaque quase imperceptível ela demonstra bastante naturalidade em sua interpretação. E apesar de não ter tido espaço para desenvolver melhor a personagem na trama, ganhou elogios da revista Variety e aparecerá em 2008 nas telas em mais algumas produções internacionais, inclusive dividindo um set com Rodrigo Santoro.

Os efeitos especiais do filme tem sido muito elogiados, coisa que na minha opinião estritamente pessoal (sim, é importante ressaltar a pessoalidade dessa minha opinião pois sei que muita gente discorda disso) tem tornado-se cada dia menos complexo de se realizar, ao passo que traz para a trama a explicitação de que aquilo é um ato de ficção, o que dificulta minha submersão na história.

Antes que esqueça de citar o diretor, Francis Lawrence – conhecido por dirigir Constantine – traz alguns pequenos bons momentos que escapam da fórmula, mas ainda assim tem sua ação ofuscada pelos clichês que parecem vir embutidos na essência da trama ou no peso do histórico de filmes correlacionados a esse.

Minha impressão final foi o de estar vendo o novo episódio de um antigo seriado sci-fi que foi repaginado pra que os fiéis espectadores do gênero possam vibrar com um produto novo, e para que algumas pessoas ganhem dinheiro, nada mais.

Meu Nome Não É Johnny, 2007

Dividido entre comédia e drama, um filme humano sobre a classe média carioca, as drogas e uma reviravolta.

Selton Mello protagonizando o primeiro lançamento nacional do ano recém chegado e mostrando que trabalhador que rala de verdade, não descansa. Digo trabalhador porque Selton atuou, deu palpite na escolha do elenco e ajudou a escrever os diálogos, como se não pudesse evitar a intromissão.

Interpretando pela primeira vez um personagem que ‘estava a seu lado’, ele revive algumas histórias da vida de uma lenda urbana carioca: João Estrella. Jovem da classe média-bem-relacionada, João era moleque quando fumou seu primeiro baseado, meio ao acaso. No filme, o papel do carinha que descola o primeiro pra ele é interpretado por Rodrigo Amarante, também conhecido como baixista do Los Hermanos.  Daí João foi crescendo e o vício também. Um dia ele se viu vendendo, ganhando e gastando mais do que imaginava e não soube a hora de parar. E chegou num tribunal, viu a mãe ali chorando e foi parar no meio dos loucos e se tornou ainda mais humano. Saiu de lá gente grande.

De tão carismático, João ganhou até um livro sobre a própria história, escrito por Guilherme Fiúza, de onde saíram as situações que deram origem ao filme.

Júlia Lemmertz faz o papel da mãe de Estrella, que no final das contas foi a última a saber de tudo. Cléo Pires interpreta a namorada Sofia que esteve ao lado dele em boa parte da jornada. Aliás, Cléo e Selton estão bem afinados. Afinados também são os diálogos que você imagina surgindo normalmente naquelas situações, principalmente se você conheceu algum cara boa praça como o João.

Rafaela Mandelli, que foi protogonista da ‘novelinha’ Malhação por uma ou duas temporadas, se destaca no papel da amiga que também passa por várias metamorfoses dentro da história. E a história se desenrola dentro dessa perspectiva: As várias etapas, a oscilação de alguém que conhece o auge da juventude sem muita noção de limites, e acaba pagando sua pena e voltando à vida normal.

Selton Mello encarnou o seu próprio “Johnny”, o que deu mais charme à trama. Muitos dizem que a história contada dessa forma heroiciza demais o personagem. Mas afinal, ele é um personagem, não?

Mauro Lima dirigiu Tainá 2 por encomenda, e caiu no projeto de Meu Nome Não É Johnny também por convite. E apesar de não ser um projeto ‘pensado’ por ele, conduziu o filme pela linha pop que ele precisava ter.

Em tempos de Tropa de Elite ninguém escapa a uma comparação, a uma pergunta. E sabe, melhor dizer que os dois filmes não se parecem, porque não se parecem mesmo. Os dois talvez lidem com a mesma coisa por prismas diferentes e um pode até abafar o outro, porque em cinema às vezes a subjetividade perde pontos frente à ação. Melhor separar cada um e deixá-los em seus devidos lugares para não julgar errado.

Selton disse que até foi convidado a participar do Tropa. Seria ‘aquele que pede pra sair’, mas já tinha acertado com Mariza Leão sua participação no Johnny. E ele fez bem, porque era preciso alguém como ele pra trazer à tela esse homem-humano. E porque no filme talvez ele seja de longe a melhor coisa.

A história é interessante. A direção coerente. Mas falta à trama uma universalidade maior que transmita a idéia de reconhecimento com o personagem, que é ele mesmo a essência do filme. A fábula do vim-vi-e-venci soa meio piegas. Tudo bem, foi bonito isso, mas e daí?

Ressaltando, o melhor desse filme são seus personagens e suas histórias. Segue um ritmo gostoso de ver, mas quando passa a ser sério, perde a graça.

Quem gosta do Selton deve ir. E quem gosta de cinema brasileiro, também.