Com a Hungria dentro de casa: conhecendo Béla Tarr.
Ainda morando numa república e aproveitando a companhia e indicação da mais nova moradora da casa – que é húngara e estudante de cinema – parti (mos) para o último dia de uma mostra sobre o cineasta húngaro Béla Tarr.
De antemão, tudo o que sabia sobre ele era que o pessimismo dava a tônica a seus filmes que, em geral, são filmados em preto e branco e trazem longas seqüências contínuas que dão a impressão de passagem de tempo ou de aproximação com o tempo real. Apesar do que possa parecer, assistir algo novo e que não fosse previsível foi o que me motivou. E também me pareceu uma boa chance de entrar um pouco mais no mundo de minha nova companhia, que de tão interessante, valia o esforço.
O filme era Werckmeister harmóniák (Hungria, 2000) com áudio em húngaro e legendas em espanhol. Antes, terei que explicitar o que acho mais fascinante sobre os húngaros: sua língua, um código bem codificado, no tamanho dessa redundância mesmo. Era o meu foco de atenção ao assistir ao filme. Ficava ali vidrada tentando perceber a sincronia entre o som e o lábio dos atores. E logo de início levei um susto simplesmente porque o protagonista, János (Lars Rudolph), quase não mexia os lábios ao falar, e mesmo quando o fazia, eu não conseguia perceber a relação entre o som e o movimento dos lábios. Aquilo me deixou mais intrigada com o húngaro, até descobrir que o ator é alemão e estava sendo dublado, coisa que incomodou minha amiga que estava ali para suprir a necessidade de ouvir alguém falando como ela.
E tudo acabou sendo uma descoberta: a língua, a dublagem, a legenda, o cinema de Béla Tarr. E eu até consegui fazer críticas sobre ele, vejam só! A experiência foi sensitiva como assistir cinema mudo e tentar pescar o conceito geral da coisa toda através das imagens que, só pra lembrar, são o produto em si do cinema. E Tarr parece saber bem disso, pois constrói imagens que oscilam entre bonitas e quase caricatas, de tão obviamente construídas que são. No contraste entre a luz e a escuridão, o preto e o branco, portas serviam como molduras da ação, e as longas seqüências que acompanham movimentos – em geral caminhadas – pareceram como um estudo de movimento contínuo: numa cena em que uma multidão caminha para o mesmo lugar, é possível perceber a oscilação no andar de cada um e o ritmo que todos aqueles andares juntos imprimiam a imagem maior, que parecia a de um bloco animado, uma centopéia de mil pernas. Ou quando o protagonista caminha sobre trilhos e seus passos formam um som ritmado e reproduzível, e é claro que acompanhei o ritmo batendo meus pés no chão. Talvez isso sirva também pra lembrar que a vida tem momentos que levam de um ponto a outro, de uma ação a outra, e que isso nem sempre é rápido, mas tem seu ritmo próprio.
Em outras sequências a caminhada nos fazia perceber o barulho do vento, que zunia não só nos cabelos do ator, mas na sala inteira a ponto de incomodar. No entanto a música, usada pouquíssimas vezes (narrativas construídas sem música costumam chamar minha atenção) pareceu sempre desnecessária, imprimindo às cenas um aspecto kitsch. Depois de vários momentos no silêncio, a música parecia estar ali para enfatizar a importância ou o sentimento que deveria estar ligado à cena, mas não era necessário. A construção da narrativa e dos personagens era suficiente para que soubéssemos o que deveria ser esperado.
Aliás, do personagem János o que percebi foi que recebia muitas ordens e fazia várias coisas a contragosto, e chamava a todos de ‘tio’ e ‘tia’, pelo menos na legenda em espanhol. Depois descobri que apesar dele parecer um homem com quase 30 anos, sempre que se referia a pessoas mais velhas, usava uma expressão particularmente utilizada por crianças (que significa algo como beijo-lhe as mãos, sinal de respeito), o que talvez tenha levado o tradutor ao verbete tia/tio não necessariamente por uma afinidade familiar entre János e quase todos os outros moradores da cidadezinha com quem ele se relacionava, mas para passar a idéia da condição de infantilidade com que ele se colocava nestas relações. Foi confuso pensar em János como sobrinho de todo mundo ao mesmo tempo em que era notório perceber a sua fragilidade frente aos outros.
Essa característica talvez tenha relação com o papel que ele parecia cumprir na narrativa: Em uma cidadezinha do interior da Hungria que vivia seu ritmo de tempos atrás, a chegada de um circo atrai visitantes e a necessidade da revelação de um segredo maior, escondido sob o manto do espetáculo, ao que János parece ser o único a entender como positivo e até poético. Por conta disso, todo o ritmo da cidade se altera, e o que vemos ao final é quase a mesma mensagem que os personagens dos ciganos representavam na narrativa de Cem Anos de Solidão, o livro de Gabriel Garcia Márquez: o contato com o novo e o imprevisível transformando as relações numa sociedade pequena, estática e já desesperançosa de mudança. Por isso o protagonista traz em si um símbolo de inocência, uma infantilidade que parecia necessária a nutrição da esperança. Inclusive é por essa inocência/esperança que János acaba pagando um preço e modificando a conduta de outro homem, que sai da sua postura egoísta de sábio/isolado para a de altruísta/zeloso, invertendo os papéis com o protagonista e tomando conta dele, quando antes era o contrário que acontecia: János era o único a se importar com ele a ponto de respeitar sua decisão de isolar-se.
No final foi bom ouvir de Saci que aquilo era – claro – apenas uma idéia da Hungria e não o todo desse país que eu comecei a conhecer há pouco tempo.
Sobre Tarr obviamente que não posso dizer muito além do que pude observar acima, conhecendo dele apenas um único filme, e talvez nós possamos conhecer juntos clicando aqui e aqui.
Boa leitura e até a próxima novidade aqui, direto da periferia.






