cineorly

na periferia da cinelândia

Outra curiosidade: Antes do Amanhecer.

Eu te levarei. Tu me levará. É como tem que ser.

Não sei quanto tempo faz desde a última vez que assisti esse filme do Richard Linklater. Sei que acabei de revê-lo e foi curioso perceber que muitas cenas e até diálogos completos permaneciam frescos, como parte integrante da minha memória. Então lembrei do dia, lá em 1996, em que eu disse pra minha mãe que ia dar uma volta. Era dezembro e lá na minha cidade o natal também tem um clima só pra ele (que envolve chuva como é de se supor). Nessa minha volta, acabei caminhando até o cinema e entrei.

Os mais céticos (se é que eles lêem esse blog) devem estar pensando que a menina que existia em mim naquela época obviamente deveria se identificar com uma historinha de amor como essa, mas acho que a menina que eu fui gostou de muito mais coisas nesse filme do que apenas seu enredo fofo. Aliás, olhando hoje para Celine – a personagem de Julie Delpy – foi engraçado reconhecê-la na mulher que, anos mais tarde, estaria pela cidade na companhia de alguém, apenas por caminhar, conversando sobre tantas coisas quanto fossem possíveis naquela situação, num de meus programas preferidos.

Mas não é só isso, porque o Linklater tem esse truque de ‘esconder’ diálogos interessantes sobre temas como morte, deus e política em meio a histórias de amor e de sonho, quando realmente você não acredita que alguém se importe em falar sobre esses assuntos. E no final fica a dúvida se ele fez um filme apenas para poder usar esses diálogos, porque a história é simples: dois estranhos começam a bater papo durante uma viagem de trem. De repente um deles precisa descer, e convida a outra pessoa a continuar a conversa descendo também, afinal de contas são só algumas horas até que Jesse (Ethan Hawke) possa pegar seu vôo pros EUA e Celine, seu trem para Paris. Assim é que eles desembarcam em Viena, uma cidade que nenhum dos dois conhece muito bem, sem dinheiro e sem saber o que fazer. E assim é que eles caminham, andam de bonde, vão a uma loja de discos, de bar em bar, numa roda-gigante. E desde o começo o espectador sabe que aquela história tem hora marcada para o final, o que já é o oposto do que o público pode querer encontrar num filme que fala de apaixonar-se. E é assim que eles conseguem dizer muitas coisas, sobre eles mesmos e sobre os outros, sem que Linklater precise recorrer à grandes técnicas ou conceitos estéticos, coisas que por vezes escondem e mascaram o conteúdo de um filme. Porque o que ele tem são coisas para serem ditas e já que não há uma censura estabelecida de fato, não é preciso recorrer a grandes alegorias para falar do que se quer. E no final, quando a câmera percorre os lugares por onde os personagens passaram, a idéia que me ocorreu foi a de que o diretor quis dizer que aqueles lugares (por mais belos que fossem) eram lugares comuns, transformados em algo maior apenas pela presença e utilização que duas pessoas fizeram deles.

É por essa simplicidade não-oca que Antes do Amanhecer é um filme que eu gostaria de ter feito.

8 Comentários »

  ander escrito @ 4 de maio 2008

=) !

  joao grando escrito @ 5 de maio 2008

Acho que qualquer amor se identifica com esse filme, até para os mais céticos.
Acabei de escrever sobre este filme e por curiosidade fui procurar a tag “Antes do Amanhecer”.
Parei aqui.
O final é lindo mesmo, emocianante, e acho que diz isso mesmo que tu disseste.

  Ana escrito @ 9 de maio 2008

É muito bom encontrar pessoas que gostam desse filme. Num momento em que filmes de ação dominam o mercado, somente pessoas especiais gostam de um filme como esse – pura arte. Sempre que estou inspirada revejo Antes do Amanhecer. É sempre atual mesmo. A sutileza dos diálogos faz dele sempre atual. A cena que marcou para mim é aquela quando eles estão deitados no parque e Celine diz que não podem transar para não acabar a magia do encontro e Jesse diz “não tem importância, sexo não é o mais importante”. É puro romance. A sequência, Antes do Por do Sol, continua na mesma linha de diálogos, delicados, simples e inteligentes. Ethan Hawke e Julie Delpy são atores fantásticos. Não consigo pensar em nenhum outro ator ou atriz que fizessem esses papéis tão bem. Richard Linklater é, para mim, um dos melhores diretores da atualidade. Também com Ethan Hawke, ele fez um filme cahmado Tape. Somente três atores – Ethan, Uma Thurman e Robert Sean Leonard. Os três, dentro de um quarto de motel, vivem situações de profundos sentimentos. Super intenso. Fantástico.

  cineorly escrito @ 9 de maio 2008

Poxa Ana!
Acabei de baixar o Tape e ainda não vi.
(Também curto muito o Linklater)

  Marcus escrito @ 1 de maio 2008

Before Sunrise e Before Sunset estão entre os meus filmes favoritos ;¬]

  Ana escrito @ 12 de maio 2008

Um ano depois e esses filmes continuam sendo os meus preferidos. E então já viu Tape? O que achou?

  admin escrito @ 17 de maio 2008

oi ana.
nem vi, acredita. a vida parece um poço e filmes a serem vistos. e esse poço só vai enchendo =)

  ana escrito @ 15 de maio 2008

Oi Admin
Espero que depois de tanto tempo já tenha visto os dois filmes. Vai aí uma outra dica de filme que eu espero venha logo para o Brasil: “Brooklyn Finest” com Ethan Hawke, Wesley Snipe e Richard Gere.

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