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na periferia da cinelândia

Archive for outubro, 2008

Festival: uma sessão espírita com Raoul Duke.

quando cheguei na saleta de sessenta e seis lugares onde colocaram três das quatro exibições de gonzo: um delírio americano (gonzo: the life and work of dr. hunter s. thompson, 2008), saquei logo que o melhor lugar era o chão do corredor lateral, e fui meio escorregando pela parede, depois de quase me desmanchar na sessão de o casamento de rachel.

lá pelo meio do documentário pensei se não era o caso de se bagunçar aquela sessão, porque no dia que assisti a erva do rato e fiquei de pé no fundo da sala, me perguntei como é que as pessoas não se chateiam ou não reclamam de não poderem, por exemplo, ficar de pé ou sentar no braço da cadeira enquanto assistem a um filme? e ali a gente tava falando de todas as trangressões de hunter thompson, que lá pelo final do documentário afirma aquilo que a gente já sabia: que qualquer coisa que se possa escrever sobre ele não supera e nem traduz a experiência de ter  estado lá, seja na vivência com os hell’s angels, em las vegas com dr. gonzo ou na candidatura em aspen.

enfim, ele joga na cara mesmo sabe como é? e eu pensei de novo: mas como é que esse pessoal ouve o cara falando e não pensa no mínimo em tacar o copo de refrigerante na parede, porra? então só me restava o chocolate que tava na bolsa, quem sabe uma iluminação, sei lá, pequena mas engraçada, dessas que meu amigo delinquente curte à beça porque diverte mesmo. e aí olhei em volta e já tinha juntado uma galerinha ali no chão do cinema, então botei uma rodada de chocolate pra gente, né?

e o filme foi passando e a gente gargalhando com muitas imagens de arquivo do cara, e o engraçado é que ele tinha uma entonação na voz que lembrava imediatamente o johnny depp no fear and loathing in las vegas, mas isso não afeta a dissociação e eles permanecem postos cada um em seu lugar, enquanto  o próprio johnny depp participa do documentário lendo trechos dos livros de hunter.

no final você entende, o cara era um romântico cansado que resolveu sair antes de ser expulso, e ainda dizem que ele foi embora num dia bonito. pra que mais?

aí o filme acabou e eu também não joguei nada na parede. mas um dos caras que dividiu o chocolate comigo me puxou pelo braço e me abraçou, dizendo ‘olha, obrigado’. e bicho, na hora eu só pensei em mandar um abraço pra ti, raoul! exatamente esse abraço que eu e o ‘estranho’ nos demos, e que – claro – era pra ti, né?

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pra ler um texto que fale mais sobre o documentário em si, clique aqui

Festival do Rio, post 4

Para não deixar a coisa esfriar e na dificuldade de participar do Festival e ter tempo para escrever textos bem elaborados para cada um dos filmes vistos, vou postar aqui alguns textículos -  um pouco maiores do que um miguelão – pra sinalizar o que achei na bagunça de filmes que rondam minha cabeça esses dias:

O bom, o mau e o bizarro, Kim Jee-Woon
Superprodução do cinema coreano transpõe uma trama típica de westerns americanos (alguém me disse que o termo ‘western americano’ é redundância, mas…) para a Coréia colonial e traz como enredo a disputa de três lendários homens cujas aventuras são popularmente conhecidas. Correndo atrás do mesmo mapa e do mesmo tesouro, o embate entre os três vai se desenrolando enquanto todos ao redor vão sendo dizimados. Bonita fotografia, piadas engraçadas e cenas de luta que nos desafiam a imaginar como aquilo possa ter sido filmado. Destaque para o figurino, cenários e objetos que misturavam elementos dos westerns clássicos como roupas de couro, botas e chapéus com elementos orientais como armaduras. Empolga e é bem divertido.

Casa Negra, Shin Terra
Até agora fica a dúvida se Shin Terra quis fazer uma comédia bizarra misturando técnicas de filmes b com suspense, ou se quis ser sério e errou na mão. Um funcionário de uma empresa de seguros cai na besteira de se identificar durante uma conversa telefônica com uma cliente. A partir daí começa a ser perseguido por um casal sem escrúpulos que não mede esforços para conseguir dinheiro através de apólices de seguros. O personagem Jeon Jun-oh é um tipo tão caricato e inocente que pareceu confirmar o estereótipo do homem-bobinho-oriental que está sempre sorrindo e fazendo reverência. Os 40 minutos finais são de gargalhar de tão inacreditáveis.

Choke, Clark Gregg
Nova adaptação cinematográfica de um livro de Chuck Palahniuk deixa uma sensação de idéia mal-cumprida ao final da projeção. Roteirizado e dirigido pelo ator Clark Gregg e apesar da presença de Sam Rockwell e Angelica Houston como protagonistas, o ritmo com que a trama se desenvolve é tão constante que a virada do personagem quase nem é sentida. Cenas desnecessárias como a do pedagogismo cristão sobre amar ao próximo não parecem coisa de Palahniuk e sim de um diretor tentando explicitar o conflito, que já sabemos, está perturbando o protagonista perturbado. Trama interessante: Cara viciado em sexo trabalha num museu sobre a vida colonial norte-americana e faz pequenos trambiques para conseguir o dinheiro necessário para manter a mãe num sanatório. Com a piora no estado de saúde da mãe ele tenta arrancar dela a confissão de quem seja seu pai, buscando assim alguma explicação para seus desequilíbrios. Sam Rockwell é sempre bom de ser visto e as piadas são bem bacanas.

De repente, o inverno passado, Gustav Hofer e Luca Ragazzi
Documentário abordando o cotidiano de um casal homossexual que mantém uma relação estável há 8 anos sem nenhum resguardo burocrático. Na Itália onde vivem, um projeto de lei é criado para legitimar a adoção para casais homossexuais e inicia ampla campanha de contestação por parte do Vaticano e congressistas ligados à Igreja. Colhendo depoimentos nas ruas, em passeatas de orgulho cristão até a parada do orgulho gay eles demonstram como o preconceito enraizado impede o debate sobre questões como essa. Reflexivo e bem-humorado debate a questão sem ser piegas.

Delta, Kornél Mundruczó
Filme feito de silêncios e sugestões mais do que ação propriamente dita, fala sobre o retorno de um homem a sua terra natal, à beira do Danúbio, uma cidade pequena onde todos se conhecem. Nesse retorno ele é tratado pelos homens do lugar como estranho, tornando-se assim ressabiado. E no encontro com uma irmã cuja existência ele desconhecia, o forasteiro encontra o apoio que precisava para pôr em prática a construção de uma bela casa num terreno que pertencia a seu pai. A comunidade passa a vigiar de perto a confusa relação entre os irmãos, deixando claro desde o começo a sua desaprovação. Apesar de falar sobre a questão do incesto, Mundruczó não o torna explícito evitando com sensibilidade a cena do beijo. Terá sido uma escolha poética de supressão da cena óbvia ou algum receio de chocar demais? A fotografia ampla privilegia a beleza natural do Danúbio e algumas cenas de ângulos menores são dirigidas com primor.

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