quando cheguei na saleta de sessenta e seis lugares onde colocaram três das quatro exibições de gonzo: um delírio americano (gonzo: the life and work of dr. hunter s. thompson, 2008), saquei logo que o melhor lugar era o chão do corredor lateral, e fui meio escorregando pela parede, depois de quase me desmanchar na sessão de o casamento de rachel.
lá pelo meio do documentário pensei se não era o caso de se bagunçar aquela sessão, porque no dia que assisti a erva do rato e fiquei de pé no fundo da sala, me perguntei como é que as pessoas não se chateiam ou não reclamam de não poderem, por exemplo, ficar de pé ou sentar no braço da cadeira enquanto assistem a um filme? e ali a gente tava falando de todas as trangressões de hunter thompson, que lá pelo final do documentário afirma aquilo que a gente já sabia: que qualquer coisa que se possa escrever sobre ele não supera e nem traduz a experiência de ter estado lá, seja na vivência com os hell’s angels, em las vegas com dr. gonzo ou na candidatura em aspen.
enfim, ele joga na cara mesmo sabe como é? e eu pensei de novo: mas como é que esse pessoal ouve o cara falando e não pensa no mínimo em tacar o copo de refrigerante na parede, porra? então só me restava o chocolate que tava na bolsa, quem sabe uma iluminação, sei lá, pequena mas engraçada, dessas que meu amigo delinquente curte à beça porque diverte mesmo. e aí olhei em volta e já tinha juntado uma galerinha ali no chão do cinema, então botei uma rodada de chocolate pra gente, né?
e o filme foi passando e a gente gargalhando com muitas imagens de arquivo do cara, e o engraçado é que ele tinha uma entonação na voz que lembrava imediatamente o johnny depp no fear and loathing in las vegas, mas isso não afeta a dissociação e eles permanecem postos cada um em seu lugar, enquanto o próprio johnny depp participa do documentário lendo trechos dos livros de hunter.
no final você entende, o cara era um romântico cansado que resolveu sair antes de ser expulso, e ainda dizem que ele foi embora num dia bonito. pra que mais?
aí o filme acabou e eu também não joguei nada na parede. mas um dos caras que dividiu o chocolate comigo me puxou pelo braço e me abraçou, dizendo ‘olha, obrigado’. e bicho, na hora eu só pensei em mandar um abraço pra ti, raoul! exatamente esse abraço que eu e o ‘estranho’ nos demos, e que – claro – era pra ti, né?
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