Ainda Orangotangos
Nada traz em si respostas fáceis que nos ensinem sobre a natureza das coisas. Foi assim que Paulo Scott escreveu os contos de Ainda Orangotangos, falando de coisas que surgem do âmago, situações-limite que explodem quando o sangue esquenta a ponto de libertar o antiqüíssimo macaco que trazemos guardado por baixo das roupas de homem.
Gustavo Spolidoro levou os contos para o cinema e aproveitou pra se impor o desafio de filmar um plano-sequência de 81 minutos, e só isso já ativa o botão da curiosidade cinéfila e é preciso ir a uma sessão pra ver como se fez. Talvez essa coisa do plano-sequência tenha mitificado um pouco o filme, mas é inevitável não pensar no trabalho afinado da produção que conseguiu organizar seis takes daqueles. Duas transições são as que mais impressionam: a da mulher que aparece nua num apartamento vazio e a do casal no apartamento da modelo, onde se entra de manhã e se sai à noite única e exclusivamente por culpa do relógio que nos avisa que muito tempo passou desde que os dois deitaram molhados na cama.
São muitos os personagens, os japoneses, o guardador de carros, a loira espevitada, a mulher nua, o porteiro, o cara da venda, o velho do churrasquinho e o professor de canto, mas parece que tudo ali diz respeito à cidade. E por mais que Porto Alegre esteja por todo lugar, no sotaque, na discussão sobre futebol e na trilha sonora, aqueles surtos e personagens podem estar agora mesmo planejando tomar de assalto o aniversário da debutante, aqui do lado, no apartamento vizinho.
Algumas coisas no filme chateiam sim, tipo a história do Papa João Paulo II ter rezado no campo do Grêmio [que poderia ter sido mais curta] ou a cena do casal se embriagando com perfume e peixinhos de aquário. E bem na hora que aquilo tudo parece ter passado do ponto, os personagens saem de cena [ainda bem] e não é preciso pensar no passado ou no futuro deles.
Como aquelas conversas fortuitas que a gente escuta no ônibus ou na portaria do prédio, muitas e muitas pessoas passam todos os dias na nossa vida sem deixar pista que nos diga como encontrá-las outra vez. E é assim que os personagens vão se sucedendo, sem grandes ligações entre si, apenas com a cidade como cimento e palco de histórias que desaparecem como fumaça, e com o sentimento humano de pertencimento perdido e reencontrado em cada uma delas. Um reencontro animal e festivo que culmina com a cena final da fuga que quebra várias convenções com uma granada só.
A direção é segura e a câmera fareja coisas ao redor da cena pra nos mostrar um personagem surgindo lá no final da rua. Algumas atuações são cambaleantes, outras convencem bem, e o melhor é ver os personagens lidando com o universo exterior ao filme, andando na rua como se nada fosse. Pareceu uma história sincera que fala do nada que é tudo, e que é gaúcha antes de tudo e pontoparágrafo









