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na periferia da cinelândia

Archive for novembro, 2008

Ainda Orangotangos

aindaorangotangos

Nada traz em si respostas fáceis que nos ensinem sobre a natureza das coisas. Foi assim que Paulo Scott escreveu os contos de Ainda Orangotangos, falando de coisas que surgem do âmago, situações-limite que explodem quando o sangue esquenta a ponto de libertar o antiqüíssimo macaco que trazemos guardado por baixo das roupas de homem.

Gustavo Spolidoro levou os contos para o cinema e aproveitou pra se impor o desafio de filmar um plano-sequência de 81 minutos, e só isso já ativa o botão da curiosidade cinéfila e é preciso ir a uma sessão pra ver como se fez. Talvez essa coisa do plano-sequência tenha mitificado um pouco o filme, mas é inevitável não pensar no trabalho afinado da produção que conseguiu organizar seis takes daqueles. Duas transições são as que mais impressionam: a da mulher que aparece nua num apartamento vazio e a do casal no apartamento da modelo, onde se entra de manhã e se sai à noite única e exclusivamente por culpa do relógio que nos avisa que muito tempo passou desde que os dois deitaram molhados na cama.

São muitos os personagens, os japoneses, o guardador de carros, a loira espevitada, a mulher nua, o porteiro, o cara da venda, o velho do churrasquinho e o professor de canto, mas parece que tudo ali diz respeito à cidade. E por mais que Porto Alegre esteja por todo lugar, no sotaque, na discussão sobre futebol e na trilha sonora, aqueles surtos e personagens podem estar agora mesmo planejando tomar de assalto o aniversário da debutante, aqui do lado, no apartamento vizinho.

Algumas coisas no filme chateiam sim, tipo a história do Papa João Paulo II ter rezado no campo do Grêmio [que poderia ter sido mais curta] ou a cena do casal se embriagando com perfume e peixinhos de aquário. E bem na hora que aquilo tudo parece ter passado do ponto, os personagens saem de cena [ainda bem] e não é preciso pensar no passado ou no futuro deles.

Como aquelas conversas fortuitas que a gente escuta no ônibus ou na portaria do prédio, muitas e muitas pessoas passam todos os dias na nossa vida sem deixar pista que nos diga como encontrá-las outra vez. E é assim que os personagens vão se sucedendo, sem grandes ligações entre si, apenas com a cidade como cimento e palco de histórias que desaparecem como fumaça, e com o sentimento humano de pertencimento perdido e reencontrado em cada uma delas. Um reencontro animal e festivo que culmina com a cena final da fuga que quebra várias convenções com uma granada só.

A direção é segura e a câmera fareja coisas ao redor da cena pra nos mostrar um personagem surgindo lá no final da rua. Algumas atuações são cambaleantes, outras convencem bem, e o melhor é ver os personagens lidando com o universo exterior ao filme, andando na rua como se nada fosse. Pareceu uma história sincera que fala do nada que é tudo, e que é gaúcha antes de tudo e pontoparágrafo

Leonera + Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada

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“Desde aquelas primeiras e ensangüentadas cenas de Leonera e a respectiva ida de Julia (Martina Gusman) à cadeia não é possível prever o que se transformará no gancho para a virada da então apática personagem. É só quando passa pela revista antes de ser encarcerada de vez que descobrimos a gravidez da protagonista. E se em Família Rodante Pablo Trapero trata da sufocante convivência de uma numerosa família em uma viagem de trailer, aqui ele investiga outra possibilidade de constituição e existência familiar: mãe e filho aprendendo a se relacionar com o mundo através das grades da prisão.[...]“

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“[...]a trilha sonora original composta pelo músico norueguês Sondre Lerche, que não só demonstra sintonia temática com os conflitos da trama (como na música To Be Surprised, tema e mensagem final do personagem de Dan) como molda a sensibilidade que permeia o filme e faz dele algo melhor do que se poderia esperar.”