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na periferia da cinelândia

artista igual pedreiro

Não sei exatamente sobre que artista ou pedreiro é esse de que fala o Macaco Bong no título de seu último álbum. Tampouco esse aqui é um texto sobre música. Mas chama atenção ver um artista ser comparado a um trabalhador braçal e aqui não estamos pra desmerecer nem um, nem outro.

Vim aqui pra fazer um relato do meu primeiro mês como voluntária numa cinemateca e desde o primeiro dia o que rolou entre eu e ela foi uma paixão dessas grandes. Pior é que ela me recebeu com as entranhas abertas, expondo tudo o que tinha de bom e ruim e até por isso fica difícil resistir ao charme de tantos ácaros e preciosidades perdidas num arquivo desse porte.

Mais interessante ainda é ver se desmanchar quadro-a-quadro o status de glamour que envolve o trabalho num lugar que de certa forma não deixa de ser um museu. Lugar pra se expor aquilo que a comunidade artística aceita e chancela como ‘arte’, palavrinha de tonalidade quase mítica nos dias de hoje.

Não sou artista, mas agora sou uma das pessoas que cuida do background, que zela, carrega, limpa, cataloga e salvaguarda o montante que se forma com o acúmulo dessa arte que passa. E ontem foi dia de transportar mais de 30.000 latas de filmes de um lugar pra outro em ações que me lembraram o trabalho dos estivadores do porto lá da minha cidade.

Final do dia, a consciência da existência de cada um dos músculos do corpo, as pernas que ajudaram a empurrar pilhas de latas expõem roxos como troféus. E é aí que eu tomo emprestado – pra subverter – o título do álbum e dizer que Pedreiro é igual Artista, e nesse caso, um não existe sem o outro.

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