cineorly

na periferia da cinelândia

a mulher de todos e seu homem*

“Tarso – Você não tem certo domínio sobre o Rogério?

Helena – Domínio nessas coisas que eu acho maravilhosas. A roupa, o cabelo, a paginação total. Isso é uma graça enorme pra mim e pra ele. Acho maravilhoso o Rogério perguntar no restaurante: ‘o que que eu vou comer?’ Isso é maravilhoso, porque é ele que está dizendo isso. É um cara que rompeu com todos os esquemas que eu conheço e me pergunta o que vai comer. Pergunta à mulher amada o que vai comer. Eu acho fantástico ele perguntar: ‘Helena, que camisa eu vou botar?’ ‘Eu quero comer carne ou peixe?’ Essa dependência total que Rogério tem de mim é absolutamente maravilhosa. Porque é radical e total.”

*Rogério Sganzerla, Coleção Encontros. Azougue Editorial.

Minhas esperanças de visitar a Ocupação Sganzerla se acabaram junto com meu salário e com o fim da exposição no último final de semana. Em compensação o universo me deu de presente a última cópia que o pessoal da editora Azougue tinha de Por um cinema sem limite. Pra esbanjar, ainda pus no pacote esse livro com várias entrevistas que leva o nome do diretor, de onde pesquei essa maravilha de fala da Helena Ignez, que me fez pensar em como é bom poder delegar essas pequenas coisas a quem realmente se interesse por cuidar delas pra nós, na mesma medida em que é bacana cuidar delas pra alguém.

O dia hoje foi bom também porque adotei um exemplar esquecido da Filme Cultura 50, o número que inaugura a retomada da revista.

Medo e delírio, post 1

“Lembranças estranhas nesta noite nervosa em Las Vegas. Cinco anos depois? Seis? Parece uma vida inteira, ou no mínimo uma Grande Era – o tipo de auge que nunca mais volta. San Francisco na metade dos anos 60 era um lugar muito especial para estar, em um tempo muito especial pra viver. Talvez tenha significado algo. Talvez não, no fim das contas… mas nenhuma explicação, nenhuma combinação de palavras, músicas ou lembranças é comparável à sensação de saber que você esteve lá, que viveu naquela parte do mundo durante aquele momento. Seja lá o que isso tenha significado.”

Esse trecho parece tão redondinho que talvez merecesse um post só dele, mas logo abaixo Hunter diz alguma coisa sobre história e gerações que eu não vou resistir em copiar aqui:

“História é um assunto nebuloso, por todas as merdas que acabam incluídas mais tarde. Mas, mesmo sem podermos ter nenhuma certeza sobre a ‘história’, parece bastante sensato imaginar que, vez ou outra, a energia de uma geração inteira atinge seu ápice num instante magnífico e duradouro, por motivos que na época ninguém compreende por inteiro – e que, em retrospecto, nunca explicam o que realmente aconteceu. [...] Todos compartilhavam uma sensação fantástica de que estávamos fazendo algo correto mesmo sem saber o que era… sentíamos que estávamos vencendo…

E acho que essa foi a armadilha – essa sensação de vitória inevitável sobre as forças do Antigo e do Maligno. Não num sentido cruel ou militar; não precisávamos disso. Nossa energia simplesmente prevaleceria. Lutar não fazia sentido – tanto do nosso lado como no deles. Aquela era a nossa hora; estávamos na crista de uma onda imensa e linda…”

Não sei, mas esse último trecho parece tão atual – pelo menos daqui, da minha imersão pessoal em determinadas leituras e discussões – que era preciso deixar isso aqui, como um lembrete.

Medo e delírio em Las Vegas – uma jornada selvagem ao coração do Sonho Americano. Hunter S. Thompson.

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