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na periferia da cinelândia

A gente se embala se embola simbora!

“Os espectadores não assistem ao carnaval, eles o vivem, uma vez que o carnaval pela sua própria natureza existe para todo o povo. Enquanto dura o carnaval, não se conhece outra vida senão a do carnaval. Impossível escapar a ela, pois o carnaval não tem nenhuma fronteira espacial. Durante a realização da festa, só se pode viver de acordo com as suas leis, isto é, as leis da liberdade.” (Bakhtin, Mikhail. A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento – O Contexto de François Rabelais. Hucitec, Brasília: 1999. p.6)

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Entonces cá estamos de volta a normalidade das ruas da Lapa e seus inferninhos de buzina de engarrafamento, mas esse texto não vem pra ser chorôrô nem pra falar das partes chatas da vida. Ele vem na verdade pra que eu conte o que aprendi sobre as festividades carnavalescas e o carnaval de rua do Rio de Janeiro.

Apesar de já ter lido sobre o carnaval ser aquele momento que antecede a quaresma e existe pra potencialização da relações carnais (em todos os níveis, como numa espécie de morte simbólica através do exagero) para que enfim o corpo possa entrar no processo de depuração necessário para os festejos de páscoa (e ressureição), foi só depois de ler Bahktin e seu estudo sobre François Rabelais e as comemorações populares ocidentais da Idade Média que visualizei a medida de importância desse período que só pode ser apreendido através da palavra exceção. 

Quando as noções cíclicas de tempo baseadas nos ciclos naturais de colheita/plantio foram dando lugar à organização social que vemos hoje, o carnaval deixou de ser um período de expurgo e libertação pra encerrar a idéia de desperdício de tempo produtivo. Na Idade Média tudo tinha seu lugar no tempo (a festa e a produção) e “ao contrário da festa oficial, o carnaval era o triunfo de uma espécie de libertação temporária da verdade dominante e do regime vigente, de abolição provisória de todas as relações hierárquicas, privilégios, regras e tabus. Era a autêntica festa do tempo, a do futuro, das alternancias e renovações. Opunha-se a toda perpetuação, a todo aperfeiçoamento e regulamentação, apontava para um futuro ainda incompleto.” (p.9) 

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A foto aí em cima ilustra muito pouco da minha curiosa/feliz vivência desse processo de blocos de rua nos bairros do centro e o mais interessante de transitar por estes bairros foi a tranquilidade de se andar pela cidade, com todo mundo conectado à mesma idéia de diversão e gentileza. Usar o transporte público parecia um grande castigo, mas depois de entrar num ônibus você podia se considerar dentro de um bloco desorganizado e rir bastante de todas as grosserias, xingamentos e bêbados. A expressão riso festivo ou carnavalesco em Bakhtin é forjada justamente como a idéia de  uma risada coletiva e não a reação a um fato isolado cômico de sentido individualizado. É nesse riso que as pessoas não apenas se congregam como se divertem juntos no meio da multidão. 

Um outro ponto diz respeito ao corpo e a sua ‘coletivização’ durante os festejos. Pensando de primeira essa idéia de corpo coletivizado pode ser bastante forte e para os mais pudicos até um pouco pornográfica, mas é a chance de se mostrar aproveitando o calor pra usar roupas menores, fantasiar com o dia-a-dia e somando-se uma linguagem de tipo familiar com apelidos e grosserias não usuais ajudam na trajetória de libertação que o carnaval propõe. Deixando Bakhtin falar, “no realismo grotesco (isto é, no sistema de imagens da cultura cômica popular), o princípio material e corporal aparece sob a forma universal, festiva e utópica. O cósmico, o social e o corporal estão ligados numa totalidade viva e indivisível. É um conjunto alegre e benfazejo.” (p.17) 

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O sentido do grotesco é falar/positivar os aspectos naturais da vida, as excreções, a sexualidade, o riso e nesse conjunto novamente nos ligar aos velhos orangotangos que todos somos, e deixar um espaço no tempo para que possamos exprimir essas idéias sobre as quais refreamos as expressões quase todos os dias, já que não mantemos relações íntimas com a grande maioria de pessoas com as quais nos relacionamos.

Pra fechar com mais uma citação do mestre, “o realismo grotesco e a paródia medieval baseiam-se nessas significações absolutas. Rebaixar consiste em aproximar da terra, entrar em comunhão com a terra concebida como princípio de absorção e, ao mesmo tempo, de nascimento: quando se degrada, amortalha-se e semeia-se simultaneamente, mata-se e dá-se a vida em seguida, mais e melhor.” (p.19)

Enfim, Bakhtin escreveu o que muitos brasileiros antes mesmo de nós já entendiam há tempos: navegar no mar-carnaval é preciso e viver nunca é preciso. 

Crédito das fotos @andercelly, @nandamelonio.

Agradecimentos especiais aos amigos que montaram o bloquinho-do-nós-bem-louco e descendo as ladeiras de Santa Tereza me deixaram com alguns machucados e muita vontade de continuar viva: Janis, Samuel, Taci, Sara, Belisário e Cincão (do meu coração de melão).

a voz do carnaval

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dias atrás era terça-feira e dentro de um bailinho de (pré?) carnaval no cine odeon tive a felicidade de lembrar alguns detalhes sobre essa complexa situação de ser um humano, embalada também pela leitura prévia daquele livro do bakhtin sobre a cultura nos tempos do renascimento (o que é que o renascimento tem a ver com isso menina?), então decretei de mim-comigo-mesma que é importante viver a vibe carnaval. ao menos um dia, ao menos um bailinho, ao menos uma anteninha de abelha na cabeça. por conta desta avalache relevante de acontecimentos festivos  este blogue estará em modo off, esperando que o carnaval me permita cumprir a promessa que fiz ao pedro sobre inventarmos a nossa própria cobertura ao vivo do oscar.

é domingo 22, só passar aqui no boteco e esperar que eu descongele meu cérebro a tempo de conseguir construir uma frase sobre as estatuetas.

e afinal, quem nasceu primeiro: o oscar ou o carnaval?