25 de dezembro 2007 · Tags:2007, catálogo, estréias, filmes, listas, melhores, pecado
buenas, eu não sei exatamente pra que servem as listas, mas arrisco dizer que nesses tempos em que vivemos eu vou estar ajudando na catalogação dos gostos de um tempo, e daqui milianos alguém vai dar de cara com um aparelho velho – que hoje a gente chama servidor – e quem sabe esse post não será pescado no meio de tantas memórias?
essa é a bengala da minha memória e, feliz ou infelizmente, ela é tudo que tenho pra me segurar. obviamente que vou esquecer uma caçarola de coisas (caçarola de coisas?) e vou precisar de pelo menos mais um ano pra ir lembrando o que vi, enquanto esqueço o que estou vendo.
oquei, de bestofi 2007:
i’m not there
the darjeeling limited
a via láctea
o cheiro do ralo
saneamento básico – o filme
inland empire
hairspray
the science of sleep
el telón de azúcar
death proof
mutum
jogo de cena
four eyed monster
marie antoinette
a scanner darkly
scoop
2 days in paris
o escafandro e a borboleta
corpo
sicko
stranger than fiction
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nessa lista há espaço também para:
catálogo: filmes de outros tempos vistos este ano:
children of men, gummo, the holy mountain, amantes constantes, árido movie, napoleon dynamite,
pecato: filmes que estrearam esse ano e que não tive grana pra ver
a vida dos outros, santiago, o pequeno italiano, lady vingança, antes que o diabo saiba que vc está morto, 4 meses 3 semanas e dois dias, cão sem dono.
até que a memória diga o contrário…
19 de dezembro 2007 · Tags:catálogo, giulia gam, josé celso martinez, junio barreto, lirinha, lírio ferreira, maconha, murilo salles, recife, road-movie, selton mello
(um dos filmes mais divertidos que vi nesse ano de 2.007 da era ocidental-judaico-cristã)
O mais importante é o fator acochativo: um nordeste pop é possível!
Um road-movie no sertão nordestino! Não, não pense assim! O árido do movie existe sim. Tem nordeste por todo lado. Tem messianismo, drogas, sexo. E tem um final que compromete o conjunto da obra. Mas tem o Selton Mello (que eu arriscaria colocar num patamar de muso do mais recente cinema nacional) com uma barriga nada invejável!
O que Lírio Ferreira (responsável também por Baile Perfumado, 1997) nos mostra é um filme que evoca o tempo/clima a todo momento, até mesmo na ocupação de seu desfocado personagem principal, o homem do tempo que é celebridade na cidade do interior pernambucano na qual nasceu. E no entanto o clima árido é só pretexto para um texto afinado e pop que se contrapõe ao discurso duro e conservador daqueles que resguardam a hierarquia e continuidade de uma família e de um povo clássico que sobreviveu as idas e vindas de uma história seca.
Vamos à sinopse: Jonas (Guilherme Weber) é o ‘homem do tempo’ de um telejornal veiculado em rede nacional. Ele vive mais um dia na vida quando recebe a notícia de que seu pai, Lázaro (numa participação sempre interessante de Paulo César Pereio), fora assassinado e que ele, Jonas, é esperado no velório, o que implica o retorno a sua cidade natal, um lugar perdido no meio do estado de Pernambuco ao qual ele aparentemente está desvinculado, pelo menos até aquele momento. Em sua viagem, Jonas é seguido de perto por um trio de amigos, Vera (Mariana Lima), Falcão (Gustavo Falcão) e Bob (Selton Mello) que não sabem bem o porquê, mas partem atrás do amigo com a idéia de lhe prestar apoio neste momento difícil; e também encontra Soledad (Giulia Gam) uma videomaker que vem pesquisando os diferentes discursos produzidos pelos nordestinos a respeito da água.
Ao chegar a seu destino, Jonas se vê pressionado por sua avó a assumir as responsabilidades pela família e ameaçado por dois tios postiços (Matheus Nachtergaele e Aramis Trindade) a abdicar de seus direitos e deixar que eles resolvam a questão do assassinato.
Agora um parêntese dedicado ao personagem de Guilherme Weber: quando nas cenas iniciais do filme, Jonas aparece em segundo plano, parecendo menos importante que o objetos que o cercam, inicialmente pensei que se tratasse de algum mistério reservado ao personagem. Mas no decorrer do filme a história de Jonas me pareceu mais pretexto do que história principal. E talvez seu desfocamento inicial tenha sido um sutil toque do diretor a esse respeito.
Penso que o filme quis mostrar que o nordeste é um reservatório de cultura pop a ser explorado e que além do universo sempre mostrado do sofrimento dos nordestinos, lá também existem índios que já nem teimam em reivindicar pra si o estatuto de primeiros habitantes, mas que se entristecem em serem tão poucos os que conhecem sua vasta cultura: pra quem deixar as receitas de chás? Que lá ainda persistem idéias mágicas ligadas ao messianismo e personagens como Meu Velho (muito bem interpretado por José Celso Martinez Corrêa), que se diz o primeiro homem a morar naquela região, aquele cuja tarefa designada por deus foi a de organizar o lugar para a habitação do homem e resguardar o seu segredo mais secreto de todos: a magia da água! E dentro ainda de questões míticas, como um lugar onde se consegue um dos melhores fumos do país. E penso que é nessa mistura de um universo mítico-religioso onde índios ainda sofrem preconceitos e oligarquias familiares antigas tendem a trocar o algodão pela maconha (muito mais rentável hoje em dia) que Lírio Ferreira propõe um nordeste diferente, com bailes regados a Renato e Seus Blue Caps que embalam jovens em busca de aventura e algum fumo. Uma mistura que coloca o nordeste não no passado, mas no presente.
Destaco algumas cenas, como a que o personagem de Selton Mello nos explica em detalhes como produzir um ‘baseado’; o depoimento de Meu Velho à Soledad; e o transe de Jonas. A força do filme que está mesmo nos personagens ditos secundários: Wedja (Suyane Moreira) a bela índia que é pivô do assassinato, de muitos ciúmes e algum desejo. Zé Dumont com o seu Zé Elétrico encarna com precisão alguém que conhece bem aquele lugar e que busca a adaptação a cada nova realidade que surge sem perder a sua essência. E o trio formado por Mariana Lima, Gustavo Falcão e Selton Mello que garantem os momentos mais divertidos do filme, com suas discussões irrelevantes, seus grandes silêncios, e sua euforia, tudo embalado por uma amizade que parece tão verdadeira quanto o sotaque de Mariana (e isso não é uma crítica ruim).
O que o Árido Movie nos fica devendo é um final menos confuso e mais elaborado, pois o mínimo que se espera depois de um filme como esse é um final condizente.
Bonita mesmo é a fotografia de Murilo Salles embalada por músicos como Otto e Junio Barreto, usados aí pra demonstrar e reiterar que o nordeste ainda existe e como todo ser vivo, é mutante e traz em sua essência o novo e o velho.