18 de abril 2009 · Tags:artista igual pedreiro, cinéfilo, cinemateca, cinematecas, macaco bong, paixão, pedreiro igual artista
Não sei exatamente sobre que artista ou pedreiro é esse de que fala o Macaco Bong no título de seu último álbum. Tampouco esse aqui é um texto sobre música. Mas chama atenção ver um artista ser comparado a um trabalhador braçal e aqui não estamos pra desmerecer nem um, nem outro.
Vim aqui pra fazer um relato do meu primeiro mês como voluntária numa cinemateca e desde o primeiro dia o que rolou entre eu e ela foi uma paixão dessas grandes. Pior é que ela me recebeu com as entranhas abertas, expondo tudo o que tinha de bom e ruim e até por isso fica difícil resistir ao charme de tantos ácaros e preciosidades perdidas num arquivo desse porte.
Mais interessante ainda é ver se desmanchar quadro-a-quadro o status de glamour que envolve o trabalho num lugar que de certa forma não deixa de ser um museu. Lugar pra se expor aquilo que a comunidade artística aceita e chancela como ‘arte’, palavrinha de tonalidade quase mítica nos dias de hoje.
Não sou artista, mas agora sou uma das pessoas que cuida do background, que zela, carrega, limpa, cataloga e salvaguarda o montante que se forma com o acúmulo dessa arte que passa. E ontem foi dia de transportar mais de 30.000 latas de filmes de um lugar pra outro em ações que me lembraram o trabalho dos estivadores do porto lá da minha cidade.
Final do dia, a consciência da existência de cada um dos músculos do corpo, as pernas que ajudaram a empurrar pilhas de latas expõem roxos como troféus. E é aí que eu tomo emprestado – pra subverter – o título do álbum e dizer que Pedreiro é igual Artista, e nesse caso, um não existe sem o outro.
28 de março 2009 · Tags:bernardo bertolucci, british film institute, cinefilia, cinéfilo, cinemateca francesa, cinematecas, citizen langlois, compartilhamento, cultura livre, dus infernus, ernest lindgren, georges franju, henri langlois, jean mitry, nouvelle vague, nova vaga, o protocolo de rebobine por favor, os sonhadores, preservação audiovisual, vitor angelo
Não se trata só de falar em preservação audiovisual e nascimento das cinematecas, aliás, para Henri Langlois não se tratava mesmo: era mais do que isso. Tem essa coisa sobre ele ter visto sua cidade natal em chamas enquanto fugia em um barco pedindo a alguém que fotografasse tudo o que eles iam deixando pra trás. Banguncemos agora essa tal linha do tempo e deixemos o menino Langlois em paz, chorando sua perda.
É fato que nem os Lumiére acreditavam na potencialidade comercial – e muito menos artística – do cinematógrafo, e talvez por isso os espaços de exibição pipocassem em todas as feiras como uma das diversões mais baratas e, portanto populares do início do século XX. Os rolos com as imagens animadas duravam tanto quanto sua procura e rentabilidade nestas mesmas feiras permitissem, pra logo depois serem descartadas transformando-se depois de derretidas em coisas como esmalte e graxa de sapato. Então é aqui que pegamos nosso personagem de novo pela mão. Nascido em 1914 na Turquia, sua trajetória confunde-se com a evolução do cinema como algo além de um divertimento descartável.

Aos 20 anos Langlois e seu amigo Georges Franju começaram uma verdadeira caça aos filmes mudos que já há muito desapareciam do mapa de exibições devido, entre outras coisas, ao surgimento dos filmes sonoros e ao descaso com qualquer valor a respeito deles. Enchendo então a banheira da casa dos pais eles foram aos poucos conhecendo pessoas que simpatizaram com seu empreendimento e em 1936, os dois garotos e mais Jean Mitry fundaram a Cinemateca Francesa.
Como nos conta a história, Langlois acreditava muito mais na exibição do que na preservação pura e simples, no que era severamente reprovado por muitos que buscavam legitimar já naquela época algumas práticas a respeito da preservação da memória audiovisual. Vale inclusive reproduzir a piadinha contada pelo professor e que diz respeito à fundação em 1935 do National Film Archive (hoje conhecido como National Film and Sound Archive) – ligada ao British Film Institute – e cujo fundador, Ernest Lindgren, pregava o arquivamento do maior número possível de filmes sem, no entanto, exibi-los. Assim é que a sigla NFA, para alguns, sinalizava a idéia “No Film Avaliable”.


Certo ou errado, também é sabido que foi em meio à riqueza das exibições da Cinemateca Francesa e das conversas ao final das sessões que surgiram idéias como o conceito de cinéfilo e esboços da nouvelle vague. O Vitor Angelo situou bem a importância da cinemateca e do Caso Langlois na criação cinematográfica que precedeu os conflitos de maio de 1968, e citou também a recriação feita em Os Sonhadores sobre as manifestações a respeito da retirada dele do comando da instituição.
Não vale a pena falar do que o ‘pessoal da oposição’ dizia sobre o caráter e as manias de Langlois. Vale sim frisar que antes mesmo de saber o que era ser cinéfilo ele ajudou a criar um ambiente para o florescimento de idéias e discussões que contribuíram para que o fazer cinema conquistasse um espaço só seu entre as já clássicas expressões artísticas, vide literatura e artes plásticas, e que numa época em que o compartilhamento e popularização do acesso a bens culturais está sendo tão discutida, suas ações ajudam e muito a fomentar o debate. Agora é ir aos poucos juntando as várias peças desse quebra-cabeça imaginário, repensando mais uma vez o fazer-cinema e esperando que nova vaga há de surgir por aí.
*Texto sobre o documentário Citizen Langlois, de 1994.