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na periferia da cinelândia

Um caminho para o Cineorly

Esses dias finalmente entendi qual a verdadeira vontade que se expressa através desse bloguinho, que é menos escrever críticas cinematográficas do que ser um caderno de anotações sobre o cinema em suas várias possibilidades, seguindo a linha de algumas leituras, a experiência em festivais (vide o É Tudo Verdade que começa nesta quinta, 26/03, aqui no Rio) e uma pequena – mas feliz – vivência com o fazer cinema.

A partir de agora, além de postar os já costumeiros textos escritos para o Cine Players, o Cineorly vai ser espaço para salvar algumas idéias e trechos de leituras que me ajudaram ou vem me ajudando na construção de um olhar crítico em formação.

Aqui os links pros últimos textos postados: O Casamento de Rachel e Pagando Bem, Que Mal Tem? (ou Zack And Miri Make a Porno)

E é isso aí pessoal!

A gente se embala se embola simbora!

“Os espectadores não assistem ao carnaval, eles o vivem, uma vez que o carnaval pela sua própria natureza existe para todo o povo. Enquanto dura o carnaval, não se conhece outra vida senão a do carnaval. Impossível escapar a ela, pois o carnaval não tem nenhuma fronteira espacial. Durante a realização da festa, só se pode viver de acordo com as suas leis, isto é, as leis da liberdade.” (Bakhtin, Mikhail. A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento – O Contexto de François Rabelais. Hucitec, Brasília: 1999. p.6)

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Entonces cá estamos de volta a normalidade das ruas da Lapa e seus inferninhos de buzina de engarrafamento, mas esse texto não vem pra ser chorôrô nem pra falar das partes chatas da vida. Ele vem na verdade pra que eu conte o que aprendi sobre as festividades carnavalescas e o carnaval de rua do Rio de Janeiro.

Apesar de já ter lido sobre o carnaval ser aquele momento que antecede a quaresma e existe pra potencialização da relações carnais (em todos os níveis, como numa espécie de morte simbólica através do exagero) para que enfim o corpo possa entrar no processo de depuração necessário para os festejos de páscoa (e ressureição), foi só depois de ler Bahktin e seu estudo sobre François Rabelais e as comemorações populares ocidentais da Idade Média que visualizei a medida de importância desse período que só pode ser apreendido através da palavra exceção. 

Quando as noções cíclicas de tempo baseadas nos ciclos naturais de colheita/plantio foram dando lugar à organização social que vemos hoje, o carnaval deixou de ser um período de expurgo e libertação pra encerrar a idéia de desperdício de tempo produtivo. Na Idade Média tudo tinha seu lugar no tempo (a festa e a produção) e “ao contrário da festa oficial, o carnaval era o triunfo de uma espécie de libertação temporária da verdade dominante e do regime vigente, de abolição provisória de todas as relações hierárquicas, privilégios, regras e tabus. Era a autêntica festa do tempo, a do futuro, das alternancias e renovações. Opunha-se a toda perpetuação, a todo aperfeiçoamento e regulamentação, apontava para um futuro ainda incompleto.” (p.9) 

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A foto aí em cima ilustra muito pouco da minha curiosa/feliz vivência desse processo de blocos de rua nos bairros do centro e o mais interessante de transitar por estes bairros foi a tranquilidade de se andar pela cidade, com todo mundo conectado à mesma idéia de diversão e gentileza. Usar o transporte público parecia um grande castigo, mas depois de entrar num ônibus você podia se considerar dentro de um bloco desorganizado e rir bastante de todas as grosserias, xingamentos e bêbados. A expressão riso festivo ou carnavalesco em Bakhtin é forjada justamente como a idéia de  uma risada coletiva e não a reação a um fato isolado cômico de sentido individualizado. É nesse riso que as pessoas não apenas se congregam como se divertem juntos no meio da multidão. 

Um outro ponto diz respeito ao corpo e a sua ‘coletivização’ durante os festejos. Pensando de primeira essa idéia de corpo coletivizado pode ser bastante forte e para os mais pudicos até um pouco pornográfica, mas é a chance de se mostrar aproveitando o calor pra usar roupas menores, fantasiar com o dia-a-dia e somando-se uma linguagem de tipo familiar com apelidos e grosserias não usuais ajudam na trajetória de libertação que o carnaval propõe. Deixando Bakhtin falar, “no realismo grotesco (isto é, no sistema de imagens da cultura cômica popular), o princípio material e corporal aparece sob a forma universal, festiva e utópica. O cósmico, o social e o corporal estão ligados numa totalidade viva e indivisível. É um conjunto alegre e benfazejo.” (p.17) 

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O sentido do grotesco é falar/positivar os aspectos naturais da vida, as excreções, a sexualidade, o riso e nesse conjunto novamente nos ligar aos velhos orangotangos que todos somos, e deixar um espaço no tempo para que possamos exprimir essas idéias sobre as quais refreamos as expressões quase todos os dias, já que não mantemos relações íntimas com a grande maioria de pessoas com as quais nos relacionamos.

Pra fechar com mais uma citação do mestre, “o realismo grotesco e a paródia medieval baseiam-se nessas significações absolutas. Rebaixar consiste em aproximar da terra, entrar em comunhão com a terra concebida como princípio de absorção e, ao mesmo tempo, de nascimento: quando se degrada, amortalha-se e semeia-se simultaneamente, mata-se e dá-se a vida em seguida, mais e melhor.” (p.19)

Enfim, Bakhtin escreveu o que muitos brasileiros antes mesmo de nós já entendiam há tempos: navegar no mar-carnaval é preciso e viver nunca é preciso. 

Crédito das fotos @andercelly, @nandamelonio.

Agradecimentos especiais aos amigos que montaram o bloquinho-do-nós-bem-louco e descendo as ladeiras de Santa Tereza me deixaram com alguns machucados e muita vontade de continuar viva: Janis, Samuel, Taci, Sara, Belisário e Cincão (do meu coração de melão).