cineorly

na periferia da cinelândia

Lost: acabou chorare.

Se tem uma coisa que eu curto é narrativa. Meu pai contando uma história, a Palmirinha ensinando uma receita, um estranho que me oferece a sua explicação sobre como chegar a algum lugar.Tudo isso é narrativa, e o Houaiss não precisa me explicar nada a respeito dessa palavra. Eu sei, sempre soube.

A gente também sabe que todo mundo pode contar a mesma história de maneiras diferentes, e é por isso que o fenômeno Lost me conquistou.

A pior coisa que existe é assistir um filme numa sala vazia: ninguém ri ou se irrita, apenas tu. Não to falando de agendamento de reações, da necessidade de um claque de risadas pra entender que é hora de rir. To falando de compartilhar a experiência de uma narrativa, e nisso a historinha malandra dessa ilha onde aconteceram várias confusões alucinantes foi uma experiência e tanto.

A cultura de massa tem essa capacidade de congregar pessoas ao redor de um evento: de um final de novela à uma partida decisiva de futebol. No twitter é comum dividirmos nossos pensamentos a respeito de vários desses episódios, e mesmo não deixando a impressão de estarmos incluidos numa verdadeira rede de relações, transforma e mescla várias linhas do tempo numa bagunça de impressões como nunca antes na história desse a)país b) planeta c) universo pop.

Lost criou uma gigantesca rede de fãs que pela primeira vez pôde se conectar através do interesse por uma narrativa usando a world wide web, essa dita cuja tão falada. O episódio final pareceu mais um alento ao bando de orfãos chorosos que precisaram ser pegos pela mão pra fazer a travessia final.

O seriado em si teve altos e baixos e a terceira temporada foi muito instigante. Mas o melhor era compartilhar essa experiência com uma pá de gente. COMPARTILHAR.

Ontem foi minha primeira vez de assistir um episódio via streaming e fazia tempo que eu não me divertia tanto ouvindo a gargalhada geral. O episódio todo foi sobre jornadas. A dos personagens com a trama e a nossa com o seriado. Como disse a respeito de Austrália, um filme que não cativou muita gente: as jornadas “levam homens e mulheres a se conectar uns aos outros, ao mesmo tempo em que cada um preenche as páginas de seu próprio livro de histórias.” Seja criando uma wiki, fazendo camisetas, tentando entender as teorias ou legendando os episódios, a gente esteve junto nessa.

Podemos ainda compartilhar outras coisas bacanas, mas essa trajetória aí acabou e foi massa vivê-la com toda essa gente que eu nem conheço.

UPDATE:

Bacana chegar em casa no dia do orgulho nerd e ver que o Matias agregou minha citação sobre a lógica da navalha de ockham no mega-post colaborativo do Trabalho Sujo sobre o final de Lost.

Trainspotting

Cada um administra suas loucuras como pode, e eu me divirto tentando sacar quais os estilos de vida que estão sendo vendidos como os mais bacanas do semestre. Você pode achar uma grande besteira, mas é o meu jeitinho de ser historiadora do futuro, e um bom termômetro pra isso são as lojas de departamento. Se não quiser entrar, basta prestar atenção nos manequins da virtrine e eles podem te dizer muito a respeito.

Feliz pela facilidade em conseguir uma camisa xadrez a preços populares, garanti as minhas e cheguei a conclusão de que os anos 90 tão aí, batendo na porta, e tranquilamente sendo transformados na bola da vez dos desejos de consumo de todos nós.

Como sentimentalidades são especialidade da casa, esse revival me fez pensar em todas as boas coisas que me aconteceram na década de 90. As inseguranças bobas da adolescência, assim como as descobertas (ambas lembradas agora com doçura), ocuparam uma tarde de ressaca e a transformaram em coisa muito mais agradável, e também me levaram de volta ao dia em que assisti Trainspotting pela primeira vez.

Naquela época rolava um ritual: toda sexta eu passava na frente do cinema e gastava um tempo esperando o cara que trocava os letreiros anunciar as estréias. Sim, era mais fácil perguntar, mas eu era socialmente muda e, obviamente, muito tímida. Então que o cartaz dizia “Trainspotting: o Laranja Mecânica dos anos 90″. Deixo aqui meu salve às frases de efeito e, ativada a curiosidade cinéfila, voltei pra primeira sessão.

Lembro como minha cabeça foi e ainda não voltou daquele lugar barulhento em que eu nunca tinha pisado antes. Uma adolescente qualquer numa sala de cinema qualquer  sendo invadida por aquele texto sobre escolhas, justamente quando tudo que eu podia escolher parecia terrivelmente chato e sem graça.

Aquele discurso da sequência inicial encontrou par perfeito em Lust For Life, e foi assim que eu e Iggy Pop nos encontramos pela primeira vez. Foi foda, mas o safado só disse quem era nos créditos finais. Naquele tempo não dava pra chegar em casa, googlear um nome e baixar a discografia, e eu demorei muito até rever o Iggy e os Stooges.

É incrível como um filme que fala sobre um grupo de amigos que dividem um vício e vão se apagando aos poucos me fez sentir viva. Me deu a noção do sangue que me corria nas veias enquanto Mark Renton precisava injetar heroína nelas e até usar um supositório escroto pra lembrar disso.

Ao mesmo tempo, foi bacana imaginar a existência do apartamento da Madre Superiora e pensar que a vida podia ser vivida daquele jeito também, se a tua escolha fosse a de mandar um grande foda-se ao mundo pra seguir se matando do seu jeito. É bom saber que existem vários tipos de camisa xadrez pra que se possa escolher qual veste melhor. Mas sempre dá pra deixar o suicídio pra amanhã e ouvir A Perfect Day, mergulhado ou não num tapete felpudo e sujo.

Cada queda do Mark naquele chão que parecia macio equivale agora ao bom e velho escorregão na cerveja nossa de cada rock, aquela tentativa frustrada de provar que a vida existe e é algo mais.

Trainspotting foi o primeiro dvd que comprei com um dos meus primeiros salários. O roteiro é um livro na estante, que inclusive é repetido, porque duas pessoas que me conhecem demais acharam por bem me dar de presente.

Enfim, garotinho juvenil, pra você  esse filme pode ser uma grande merda, mas ‘Choose life’ é o que se lê num dos meus bottons mais antigos.

Next entries »