1 de abril 2008 · Tags:2007, casa, castelo, documentário, família, joão moreira salles, loucura?, maldito, personagem, santiago
Embalsamando Santiago. Expondo João.

O que começou como um documentário comum – apesar de todo o preciosismo evidente na fotografia ao modo Ozu –, acabou transformando-se em um estudo sobre o gênero, partindo da análise da relação de poder existente entre documentador e documentado (sobre a qual nunca se fala, mas sempre existe), e das implicações que essa relação produz, entre aquilo que fica como produto final e aquilo que poderia ter sido conduzido de outra maneira.
João Moreira Salles percebeu a tempo que sua investigação em Santiago tinha algo fora do lugar, e deixou de lado o material de gravações feitas durante alguns dias no então atual lar do homem que por 30 anos cuidou de sua família, na casa que ele mesmo relacionava à idéia de um piccolo castelo, com sua dinastia de embaixadores e presidentes que completavam a idealização de Santiago sobre a vida dos grandes homens e mulheres da história. Histórias, aliás, que o acompanhavam em suas mais de 30 mil páginas escritas sobre os mais diversos e improváveis personagens.

O cineasta vai ao encontro do mordomo que povoa as lembranças de sua infância na busca de reabrir as portas da antiga casa em que viveu boa parte da vida, no tempo em que celebravam o dia dos seus anos e ninguém estava morto. Aliás, estar vivo e com a mente ainda tão prodigiosa é algo que parece perturbar Santiago, sempre fazendo questão de mencionar que quase todos aqueles que cita em suas memórias, poemas e anotações já estão mortos, inclusive o peru da ceia.
Pelo inusitado de sua conduta é possível entender o interesse de embalsamar Santiago em um filme e assim mostrá-lo como espécime humano que sempre instigará curiosidade, mas não é bem assim que se conduz a ação num primeiro momento: o diretor tenta arrancar lembranças que ele talvez imagine não fazerem parte da vida do mordomo e sim da sua, como se fosse preciso registrar aquilo que estava guardado na memória do outro para compor a sua própria história. E talvez por isso seja mais fácil entender a narração em off, na voz do irmão, para que o objeto principal do filme (Santiago ou outra coisa?) e seu realizador guardem entre si uma distância sadia.
E é justamente essa distância que João Moreira Salles interpreta como o maior erro do filme que ele tentou fazer em 92 – ano das filmagens – e ao qual só conseguiu dar novo sentido em 2005: a distância da relação patrão e empregado o impediu de enxergar mais de perto aquele homem que não existia apenas como apoio às suas memórias, mas que possuía a sua própria história, tão curiosa e plena quanto à da família de João.
O que chama atenção neste documentário é perceber que por detrás dos motivos que levaram o diretor a produzi-lo existia uma figura forte e cativante, que antes de ser um homem incomum, deslocado no tempo e no espaço, e tratado em alguns momentos como atração num freak show elegante, ele é o próprio personagem de si mesmo, e não apenas um meio através do qual poderia-se consolar de perdas e resgatar algumas histórias.
E Moreira Salles percebeu isso um pouco tarde, pois quando retornou ao filme, Santiago já não estava mais aqui. E ainda assim foi possível fazer dele mais do que uma peça perdida em uma das várias salas da Casa da Gávea, hoje um museu.
Nas tomadas repetidas que o filme faz questão de mostrar (exemplificando assim os erros e esperando redimi-los ao apontá-los) percebemos o quanto da espontaneidade na ‘interpretação’ de Santiago foi perdida e o quão mecânicas são as relações entre câmera, produção e interpretação, necessárias para a composição daquele objetivo primordial da história cujo embrião remete à idéia no papel, à primeira idéia sobre o filme, que nem sempre é o produto final. Salles nos ajuda a entender o mecanismo do documentário ao mesmo tempo em que desmascara as mediações necessárias à sua construção, e aquela idealização do purismo documental se perde.
Não se encantar com Santiago é coisa difícil e o que me passou pela cabeça foi imaginar o menino João Moreira Salles envolvido com tantas figuras interessantes desde cedo, e ainda margeado por alguém como esse mordomo. Esse tão específico senhor que encontramos em seu pequeno apartamento, muito diferente dos tempos de outrora e ainda tão mais ele do que antigamente, já que o tempo conseguiu refinar e resguardar muito do que o personagem Santiago representava para o menino João. Um argentino que podia conversar num espanhol meio abrasileirado para terminar uma história sobre a Itália falando italiano, sem com isso soar blasé ou proposital. Porque seu particular catálogo da história humana e suas dinastias – sejam elas indígenas ou cinematográficas – era escrito da mesma forma, alternando idiomas, e foi entregue a João como herança. Um pequeno tesouro.
Que infelicidade o diretor não conseguir ouvir o documentado, e bem na hora em que ele reconheceu um bom momento para falar daquilo que o movimentava a ser como era… Ainda se consegue ouvir a palavra maldito… Mas já era tarde, a câmera estava desligada e os planos eram outros.
O que conforta, ao menos ao que parece, é pensar que Moreira Salles tenha ficado tão chateado com ele mesmo quanto nós.

10 de dezembro 2007 · Tags:coutinho, documentário, impuro, mulheres, pessoas
Coutinho nos põe no palco para nos dar lições de melodrama unida a documentarismo, e ainda revela muito sobre o conhecido mimetismo do ator.
O título deste que é o mais recente trabalho de Eduardo Coutinho já é suficientemente revelador: aqui é O Jogo de Cena que nos interessa. E a produção busca como alimento para as interpretações que promove, histórias reais, desafiando assim ainda mais os atores (no caso, as atrizes), pois suas personagens são criações não-dramáticas sobre as quais se pode obviamente criar, contanto que se suporte o peso da realidade envolvida.
E é esse o jogo: A produção pôs um anúncio de jornal solicitando mulheres que se dispusessem a falar de si mesmas diante das câmeras. Foram 83 as respostas, das quais 23 foram selecionadas. Meses depois no Teatro Glauce Rocha no Rio de Janeiro, atrizes foram convidadas para interpretar as histórias escolhidas.
Assim que entramos no documentário (que os próprios produtores nomearam como ‘impuro’ por incorporar atrizes) as coisas – aparentemente normais – parecem fora de lugar: mulheres comuns parecem assumir o lugar das atrizes, entrando num palco para interpretar algumas histórias, que podem lhes pertencer ou não. A partir daí seguimos os relatos sendo contados e entrecortados por mais de uma, às vezes mais de duas vozes, que se complementam completando a história. Disso surge a pluralidade de interpretações de um mesmo texto, que ainda que seja o mesmo, não se repete, apesar de resguardar os sentimentos do discurso original.
Isso é o mais instigante em Jogo de Cena: a brincadeira é com o ato de interpretar: interpretar os outros ou interpretar a si mesmo são apenas níveis diferentes de uma mesma ação. São três as atrizes ‘profissionais’ que passam pela experiência: Andréa Beltrão, que ao interpretar um dos relatos, revela algumas escolhas pessoais e se emociona por não crer no mesmo que sua personagem, deixando claro que em geral é difícil não se deixar envolver; Fernanda Torres que entra em cena gesticulando de forma parecida com sua personagem, no que é interrogada por Coutinho e responde: Ué, pensei que era assim! Isso parece um teste! Assim ela faz também uma pequena reflexão sobre como ‘sentiu’ a personagem, terminando por contar uma incrível história que não se pode dizer se aconteceu com ela ou com outra pessoa, ou sequer se realmente aconteceu; e Marília Pêra que de início pareceu tímida, interpretando aquela mulher que dizia chorar sempre que assiste ao filme Procurando Nemo, é a mais impessoal das atrizes, se limitando a interpretar e até cantar como a personagem. Marília leva ao palco do filme uma curiosidade: o tal cristal japonês usado para fazer brotarem lágrimas. Ela diz que foi preparada caso Coutinho quisesse muito vê-la chorar.
Com exceção das atrizes conhecidas, é muito difícil reconhecer quem está contando sua própria história ou quem as está somente interpretando. Vemos a história da mulher que conheceu um motorista de ônibus (ou de metrô?). Em poucos minutos de conversa a coisa já esquenta entre os dois. Tempos depois ela descobre estar grávida de um homem com quem se relacionou por apenas alguns minutos e nunca mais viu. E tudo parece tão ‘acreditável’ que eu cheguei a ficar com raiva quando ela termina sua participação com: “E foi assim que ela disse!”
Mesmo com a repetição dos relatos, que já sabemos intencional, é impossível não se emocionar duas ou três vezes com a mesma história. Na primeira vez que ouvimos aquela mãe contando sobre o filho que morre e volta em forma de anjo para lhe confortar, o sentimento é forte. Na segunda vez você pensa que vai ser ridículo chorar de novo, mas ainda assim se emociona. E foi aqui que eu encontrei talvez outra peça pra entender o filme de Coutinho: além de nos pôr dentro do jogo de interpretar, ele abusa da chamada ‘suspensão voluntária da descrença’, quando o espectador é levado pelo enredo e a representação a, conscientemente, ‘esquecer’ que está diante de uma obra de ficção e se deixa emocionar. Logo depois de nos instalar confortavelmente em nossas poltronas de confiança, ele nos joga na cara a verdade da representação e eu me senti enganada. Mas tão bem enganada que fico feliz de ter ido à sessão.
É na base da desconstrução que caminha o filme, conquistando nossa confiança e seguidamente nos traindo, mostrando a impureza desse documentário com atrizes, que utiliza um vínculo inegável com a realidade para nos embebedar pelo sentimento das histórias contadas, nos dando uma lição de como usar os efeitos melodramáticos (e aqui se entenda o termo melodrama como um sinônimo da utilização de fórmulas e efeitos fáceis já conhecidos que proporcionam o envolvimento do público, apoiado por elementos que ajudam a induzir a platéia ao choro ou a um sentimentalismo exagerado.
Eduardo Coutinho sempre surpreende. Com trabalhos que o consagraram como um dos melhores documentaristas brasileiros (vide o clássico Cabra Marcado Para Morrer, ou o recente Edifício Master) dessa vez mostra uma diferente possibilidade de relacionar documentário e ficção, nos movendo para cima do palco – um dos símbolos da arte de interpretar – nos mostrando, sempre ao fundo, aquela platéia vazia e nos levando a acreditar que migramos de um processo a outro, de modestos espectadores à parte da equipe do filme. Mas antes mesmo do final você percebe que está diante de uma obra que manipula os espectadores da mesma forma que movimenta as câmeras: às vezes como um olho que olha os outros; as vezes como alguém que enxerga a si mesmo. E nesse caso, mas só nesse, ser manipulado parece interessante…