cineorly

na periferia da cinelândia

Linkando

Os três últimos textos publicados no Cine Players:

doubt_4

Dúvida é uma das estréias da semana e traz o trio de atores principais indicados às categorias do Oscar, sendo Philip Seymour Hoffman para ator coadjuvante, Amy Adams para atriz coadjuvante e Meryl Streep ao de melhor interpretação feminina:

“A ação de Dúvida ocorre dentro do cotidiano de uma escola católica no Bronx, subúrbio de Nova Iorque, na década de 1960. Como não poderia deixar de ser já que estamos falando de uma das décadas mais progressistas da história contemporânea, o embate que acontece dentro da escola diz respeito à chegada de um padre que prega um discurso mais liberal e da resistência de uma freira que se apega aos dogmas com a intenção de proteger o rebanho de crianças das vicissitudes ‘modernas’.” [Leia mais]

australia1

Em Austrália, Baz Luhrmann se propõe à contar apenas uma história que já está em cartaz há algumas semanas no circuito nacional e tem agregado opiniões muito diferentes sobre seu erros e acertos. Concorre ao Oscar de Melhor Figurino:

“Nesta aventura que envolve três pessoas e um objetivo, o filme tem espaço também para falar das jornadas individuais de cada um, jornadas estas que levam homens e mulheres a se conectar uns aos outros, ao mesmo tempo em que cada um preenche as páginas de seu próprio livro de histórias. E assim passamos de uma leve comédia, para uma entusiasmante aventura, que logo se transforma em uma história de amor e tragédia, ainda que a parte final seja um pouco aborrecida para quem já viu inúmeros filmes que narram as histórias pertencentes ao episódio da Segunda Guerra Mundial.” [Leia mais]

huckabees_image

E por último, Huckabees – A vida é uma comédia, filme de 2004 e cujo texto já publiquei aqui no blog. Pra quem não leu:

“Na dúvida cruel de Markovski sobre continuar tentando salvar ao menos uma pedra dessa avalanche confusa de interesses que chamamos vida, ele percebe em seu arqui-rival, um duplo seu, um contrário absoluto de sua imagem: o executivo da loja, Brad Stand (Jude Law). Bonito, bem articulado, rico e namorado da modelo, Brad é tudo que Markovski gostaria de ser e ao mesmo tempo dono das mesmas confusões que o assombram. A cena da libertação do personagem de Schwartzman é também a mais emblemática: depois de sabotar a vida de Brad e vê-lo destruído como ele se sentia, Markovski enxerga na foto instantânea do choro inimigo o seu próprio rosto remontado. Enfim a paz de espírito floresce.” [Leia mais]

Oscar 09: Redescobrindo a América

 

Você pode até dizer que eu to forçando a barra ou inventando, mas vale a pena assistir alguns dos filmes hollywoodianos que estão concorrendo ao Oscar desse ano com mais do que um olhar cinéfilo. Juntando algumas pontas soltas aqui e ali, vale a pena pensar em Foi Apenas Um Sonho, Gran Torino, e Dúvida como peças num painel que revisita alguns fundamentos da cultura norte-americana, principalmente no que diz respeito a relação dos norte-americanos com eles mesmos e com os estrangeiros.

Film Review Gran Torino

No topo do painel coloquemos Gran Torino, filme de Clint Eastwood que conta a história de um veterano da guerra da Coréia, morador do mesmo bairro há algumas décadas, pouco afeito à religião e que trabalhou durante 50 anos numa fábrica da Ford. A ação ocorre em torno de sua incompreensão a respeito do lugar que o mundo se transformou enquanto ele criava os filhos e montava carros. Tomado por preconceitos arraigados numa moral patriarcal e ultranacionalista ele precisará recriar as suas relações com o mundo ‘exterior à sua propriedade’ após a morte da esposa. O mais interessante é que o personagem interpretado e dirigido pelo próprio Eastwood consegue manter-se fiel aos seus valores e aprender algumas lições, além de servir como um avô que faz a ponte entre um mundo de décadas passadas com a realidade dos jovens de hoje, explicando um pouco sobre o humor, a amizade e o respeito à moda americana. Perceba a relação que o roteiro cria na referência do bairro suburbano como um lugar de conflitos entre imigrantes, latinos, negros e brancos, todos vivendo num clima de tensão confusa e generalizada tornando desastrosos os relacionamentos, onde a negação do outro está fortemente relacionado à sobrevivência. 

doubt_l

Neste ponto agregamos ao painel o filme Dúvida. Dirigido por John Patrick Shanley, o filme é a transposição de uma peça teatral homônima também escrita por ele. A história se passa numa escola católica do Bronx/Nova Iorque onde a intolerância e a falta de abertura para diálogos sem preconceitos alimentados pela Irmã Aloysius (Meryl Streep) gera um processo de caça a um padre (interpretado por Phillip Seymour Hoffma). Baseada apenas em sua própria consciência e interpretação de fatos conhecidos pela metade, a irmã julga o padre por um suposto abuso a um aluno negro recém-chegado à escola. Sem medir esforços para provar o incidente e também apegada a idéia de não voltar atrás ou reconhecer-se errada, a freira extrapola os seus próprios limites de moralidade. Um bom ponto do filme é que a dúvida permanece sem resposta mesmo depois dos créditos.

road1

Foi Apenas Um Sonho fica então na base do nosso painel e trata o american way of life ainda em sua fase de gestação. O diretor Sam Medes que já havia falado desse sonho americano em sua fase decadente com o bonito Beleza Americana, dirige agora a própria esposa, Kate Winslet, que junto com Leonardo Di Caprio forma o casal Wheeler. Jovens, bonitos e ainda apaixonados os dois são admirados pela vizinhança como símbolo da vitória desse modelo familiar aparentemente perfeito e recém-nascido. Winslet se sai muito bem no papel da esposa cujo brilho de viver vai se apagando com o passar das cenas. Mas o melhor papel fica com Michael Shannon: o filho da vizinha que acaba de deixar uma instituição psiquiátrica é o único que se demonstra furioso diante das encenações mentirosas de felicidade e fala abertamente sobre a hipocrisia que resguarda a verdadeira realidade dessas relações escondida sob os móveis e as roupas impecáveis.

Parece então que os estúdios resolveram apostar em filmes que tocam essas delicadas questões através de várias leituras possíveis, dando assim espaços para reflexões mais redondas e não tão superficiais. Alguns dizem ser essa uma tentativa dos americanos admitirem suas falhas e pedirem desculpas, como num julgamento sem juízes. Prefiro pensar que eles finalmente resolveram mostra-se humanos e não mais super-heróis.