29 de novembro 2007 · Tags:camila guzmán, cuba, documentário, festival do rio 07
Um cosmonauta que nunca pisou em terra
‘Um documentário sobre Cuba’ parece muito pouco do que se pode dizer a respeito desta película. Nela nos é apresentada uma visão – pessoal e intransferível – de Cuba hoje, passados quase 20 anos da queda do ideológico muro socialista. Camila Guzmán, filha do documentarista chileno Patricio Guzmán, e cuja família foi recebida por Fidel logo após a derribada de Allende, busca compreender – com uma pequena ajuda de seus amigos – qual o erro na trajetória de seu país adotivo.
O filme fala, sem panfletarismo, de como foi belo o sonho cubano que forjou, em pleno século XX, uma sociedade hedonista/humanista tal qual nossos modelos Greco-romanos, e investiga sob que fina camada de açúcar esses mesmos sonhos foram plantados.
Confrontando passado e presente a diretora passeia entre aqueles que permaneceram em Cuba, e outros que a deixaram, e suas opiniões em geral convergentes, apesar das diferentes atitudes. Fala de sua experiência na escola primária, em que ainda hoje aprendem-se os mesmos hinos de ufanismo e ensina-se todas as glórias passadas, sobre os escombros da revolução.
A preocupação de Guzmán é identificar o que ocorreu com sua geração, Os Pioneiros, preparados para serem los forjadores del futuro: el hombre nuevo que imaginó el Ché, e a inquietação que dominou todos estes jovens diante do declínio vertiginoso de seus ideais. Após o chamado Período Especial (período de turbulentas privações, depois do fim da URSS e conseqüentemente do que sustentava materialmente esse sonho), muitos dos bem educados e capazes jovens cubanos resolveram emigrar, já que a ilha lhes negava o que ela mesma lhes ensinou a prezar: a liberdade de, simplesmente, serem aquilo que gostariam e prepararam-se para ser.
A busca de Camila parece ter sido conclusiva, de acordo com seu comentário quando da apresentação do documentário no Festival de San Sebastián em 2006:
“No creo que sea imposible la revolución, pero Cuba no es un modelo a seguir”.
Cuba falhou, mas os homens estão vivos! E são capazes…
29 de novembro 2007 · Tags:festival do rio 07, gael, michel gondry
E se os seus sonhos atropelassem a realidade?
Esse é o mais recente trabalho de Michel Gondry, diretor também do querido Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, que de tão querido, foi um dos motivos que tornaram ainda maiores as expectativas a respeito de Sonhando Acordado.
Acontece que grandes expectativas podem gerar também grandes decepções. Das pessoas que já assistiram, muitas foram as que disseram não ser ele grande coisa; mais um filme e ponto. Então que terei de fazer um caminho mais longo para me explicar.
Como qualifico um filme entre bom e ruim? Primeiro: se ao final dele você for capaz de, em uma frase ou parágrafo defini-lo, ponto! Ao menos ele cumpriu o papel que se propôs cumprir e nós entendemos isso com todas as letras. Segundo: os atores. Bons atores em bons personagens são aqueles que parecem totalmente confortáveis na roupa que vestem. Falam, andam, riem. Como eu ou você. Terceiro: Se o filme nos mostra uma diferente perspectiva de roteiro, uma nova forma de narrativa ou utiliza elementos insólitos para compor sua história, marco mais um ponto em minha cartela. Bem, existem ainda os filmes excepcionais. Mas para esses geralmente não há cartela, nem padrões.
Agora analisando, Sonhando Acordado talvez não seja dos títulos mais felizes, já que Stéphane – o personagem de Gael Garcia Bernal – apesar de viver sonhos lúcidos, sofre também com sua imaginação que o impede de interagir bem com a realidade, e, consciente do problema, empreende uma espécie de investigação, criando assim uma ciência do sono (ou uma science of sleep), com direito inclusive a um talk-show onírico onde discorre sobre receitas de sonhos, recebe convidados, tudo na tentativa de descobri um porquê. Aqui já poderíamos marcar um “x” na cartelinha devido à inventividade do roteirista-diretor, que cria imagens de sonho muito bonitas dentro do mundo de Stéphane. Aliás, personagem um tanto complexo, pois além de sonhar acordado, é tímido, e criou em torno de si esse mundo tão distante do real, que ao realmente apaixonar-se por sua vizinha-quase-xará, Stephanie (A bela Charlotte Gainsbourg), é que percebe que deve encontrar uma solução para seu problema.
Outra boa coisa são os cenários: Os Alpes em um tipo de algodão; a janela da sala do chefe que serve de tela para vários devaneios; o cenário do talk-show, com suas paredes de caixas de ovos e seu piano. E alguns artifícios, como o cavalo-de-pano de Stephanie, a vizinha, que ganha vida; a máquina de controlar o tempo, que antecipa ou atrasa alguns segundos da vida; a água de papel que escapa pela torneira. Todos esses detalhes remontam a uma cuidadosa produção em total sintonia com o roteiro. Mais um ponto na cartela.
Outro ponto vai para os sonhos de Stéphane em si, que são cheios de imaginatividade, beleza e graça, porque para ele acordar é sempre chato. E sonhar é sempre lúdico.
Sobre as atuações é justo dizer que Charlotte Gainsbourg está dentro da média, mostrando-se como uma mulher francesa, de grande sensibilidade, mas sem paciência pra entender porque o vizinho aparece nu no corredor e lhe passa um bilhete por baixo da porta ou porque lhe cobra algumas atitudes que ela desconhece. Já Gael, apesar de esforçar-se, parece não ter o carisma necessário para o papel. A idéia que tive é que nos momentos em que ele deveria se mostrar mais carismático, faltou-lhe o timing. No entanto, foi competente em mostrar um protagonista inocente, ensimesmado e confuso. Ah, e bonito também.
Mas quem esperava encontrar na dupla Gael-Charlotte mais um casal fictício complicado e perfeitinho, preferiu lembrar-se da dupla Jim- Kate. Ou Joel e Clementine.
Veremos agora, quantas marcações fiz em minha cartela… Umas tantas. Algumas consideráveis.
E você, quantos “x” marcou?