6 de fevereiro 2009 · Tags:amy adams, austrália, baz luhrmann, cine players, dúvida, huckabees - a vida é uma comédia, linkando, meryl streep, oscar, philip seymour hoffman
Os três últimos textos publicados no Cine Players:

Dúvida é uma das estréias da semana e traz o trio de atores principais indicados às categorias do Oscar, sendo Philip Seymour Hoffman para ator coadjuvante, Amy Adams para atriz coadjuvante e Meryl Streep ao de melhor interpretação feminina:
“A ação de Dúvida ocorre dentro do cotidiano de uma escola católica no Bronx, subúrbio de Nova Iorque, na década de 1960. Como não poderia deixar de ser já que estamos falando de uma das décadas mais progressistas da história contemporânea, o embate que acontece dentro da escola diz respeito à chegada de um padre que prega um discurso mais liberal e da resistência de uma freira que se apega aos dogmas com a intenção de proteger o rebanho de crianças das vicissitudes ‘modernas’.” [Leia mais]

Em Austrália, Baz Luhrmann se propõe à contar apenas uma história que já está em cartaz há algumas semanas no circuito nacional e tem agregado opiniões muito diferentes sobre seu erros e acertos. Concorre ao Oscar de Melhor Figurino:
“Nesta aventura que envolve três pessoas e um objetivo, o filme tem espaço também para falar das jornadas individuais de cada um, jornadas estas que levam homens e mulheres a se conectar uns aos outros, ao mesmo tempo em que cada um preenche as páginas de seu próprio livro de histórias. E assim passamos de uma leve comédia, para uma entusiasmante aventura, que logo se transforma em uma história de amor e tragédia, ainda que a parte final seja um pouco aborrecida para quem já viu inúmeros filmes que narram as histórias pertencentes ao episódio da Segunda Guerra Mundial.” [Leia mais]

E por último, Huckabees – A vida é uma comédia, filme de 2004 e cujo texto já publiquei aqui no blog. Pra quem não leu:
“Na dúvida cruel de Markovski sobre continuar tentando salvar ao menos uma pedra dessa avalanche confusa de interesses que chamamos vida, ele percebe em seu arqui-rival, um duplo seu, um contrário absoluto de sua imagem: o executivo da loja, Brad Stand (Jude Law). Bonito, bem articulado, rico e namorado da modelo, Brad é tudo que Markovski gostaria de ser e ao mesmo tempo dono das mesmas confusões que o assombram. A cena da libertação do personagem de Schwartzman é também a mais emblemática: depois de sabotar a vida de Brad e vê-lo destruído como ele se sentia, Markovski enxerga na foto instantânea do choro inimigo o seu próprio rosto remontado. Enfim a paz de espírito floresce.” [Leia mais]
21 de janeiro 2009 · Tags:colaborativo, david o. russel, detetives existenciais, dustin hoffman, grande manta, huckabees - a vida é uma comédia, isabelle huppert, jason schwartzman, lily tomlin, mark wahlberg, naomi watts

Talvez uma comédia de erros. Talvez não. Ou talvez seja tudo muito mais poético do que isso.
Aproveitando o aviso de que a tv aberta exibiria um dos meus filmes prediletos da vida, fiquei espiando a festa da posse do Obama enquanto não chegava a hora de rever Huckabees. E aproveitando que a dublagem ficou boa, revisitar esse filme e ver novas coisas nele foi tão legal que escrevi um texto.
Segue ele:
Discussões sobre qual a verdadeira vocação do cinema – arte ou entretenimento? – já se perderam num universo de partículas elementares e hoje é possível admitir que ele (o cinema) possa servir a várias coisas, inclusive à arte e ao entretenimento. Quando vemos o argumento de Huckabees – A Vida É Uma Comédia isso fica um tantinho mais claro, pois que David O. Russel (que também é diretor) e Jeff Baena (co-roteirista) conseguiram dar um corpo leve a uma história pesada. Esse corpo leve ao qual me refiro é formado pelo conjunto que envolve a trilha sonora de Jon Brion, (responsável também pela trilha de Magnólia e Sinédoque, Nova Iorque), passando pela escolha da cartela de cores, até a maneira como o roteiro transforma as questões de Albert Markovski (Jason Schwartzman) em coisas cotidianas. Esses pontos dizem respeito à arte do filme, ao passo que a escolha da comédia traz a dose de entretenimento que precisamos para assisti-lo do começo ao fim.
O título faz referência a uma loja de departamentos cujo slogan é – numa tradução grosseira – “A loja que tem tudo”. E ao mesmo tempo em que O. Russel utiliza essa metáfora para tratar a vida como uma loja de departamentos, ele ajuda a desconstruir o mito de que a verdadeira maldade dos nossos tempos esteja ligada à existência dos shoppings centers e não às nossas escolhas. Assim é que Markovski se vê intrigado com o coincidente reencontro com um homem, que por acaso é africano, e que ele desconhece, mas a quem julga responsável pelos problemas atuais de sua vida. Numa outra coincidência, ao tomar emprestado um terno, Markovski encontra em seu bolso o cartão de visitas de Vivian (Lily Tomlin) que se apresenta como “detetive existencial”. Em busca de alguma paz de espírito ele vai até o escritório da detetive saber como essa coisa toda funciona (e se funciona). E aqui cabe um parêntese para ligar o consultório de Vivian e Bernard (Dustin Hoffman) à Lacuna Inc. de Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças pela absurdez dos tratamentos que propõem.
Depois de contar o que ele acredita ser seu problema (the african guy), os detetives aos poucos vão inserindo-o no programa de tratamento existencial, uma pajelança de várias teorias entre psicologia, física quântica e bom senso e Bernard nos premia com a explicação sobre a “grande manta” e digamos que isso seja bastante sensato porque estamos mesmo todos interligados: nós, a torre eiffel e um hambúrguer.
Desconstruindo várias certezas, algumas fílmicas e outras do senso comum, vemos a modelo Huckabees (Naomi Watts) decretando estar cansada de precisar estar sempre bonita; vemos a filósofa niilista francesa (Isabelle Huppert) confundindo todo mundo para poder esclarecer e se esclarecer; o African Guy (ator cujo nome não consegui encontrar) querendo apenas se enquadrar e viver bem; o bombeiro confuso (Mark Wahlberg) descobrir a força do amor em meio a um mundo que ele acreditava sem verdade alguma e os próprios detetives sendo expiados pelo paciente.
Na dúvida cruel de Markovski sobre continuar tentando salvar ao menos uma pedra dessa avalanche confusa de interesses que chamamos vida, ele percebe em seu arqui-rival um duplo seu, um contrário absoluto de sua imagem: o executivo da loja, Brad Stand (Jude Law). Bonito, bem articulado, rico e namorado da modelo, Brad é tudo que Markovski gostaria de ser e ao mesmo tempo dono das mesmas confusões que o assombram. A cena da libertação do personagem de Schwartzman é também a mais emblemática: Depois de sabotar a vida de Brad e vê-lo destruído como ele se sentia, Markovski enxerga na foto instantânea do choro inimigo o seu próprio rosto remontado. Enfim a paz de espírito floresce.
Até na escolha do elenco que mistura atores consagrados como Dustin Hoffman e Isabelle Huppert a nomes reconhecidos apenas por atuações em blockbusters como Mark Wahlberg, e associando trilha sonora original com Shania Twain e Beethoven, David O. Russel ensina que todos somos partes respeitáveis de uma manta que cobre mais espaço e tempo do que nossos olhos possam enxergar. E parafraseando o sempre parafraseado Marshall MacLuhan, neste filme o meio foi a massagem.
E como última mensagem (tema de reflexão, quem sabe?) copio Albert Markovski, o personagem:
Nobody sits like this rock sits. You rock ,rock . The rock just sits and is. You show us how to just sit here, and that’s what we need.

I Heart Huckabees (EUA/Alemanha,2004).Dir: David O. Russel. Elenco: Dustin Hoffman, Lily Tomlin, Isabelle Huppert, Jason Schwartzman, Mark Wahlberg & Naomi Watts
#Escrito com a ajuda de Descascaralho & Moedoteca & IMDB
#Este mesmo texto vai ser publicado no www.cineplayers.com