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Oscar 09: Redescobrindo a América

 

Você pode até dizer que eu to forçando a barra ou inventando, mas vale a pena assistir alguns dos filmes hollywoodianos que estão concorrendo ao Oscar desse ano com mais do que um olhar cinéfilo. Juntando algumas pontas soltas aqui e ali, vale a pena pensar em Foi Apenas Um Sonho, Gran Torino, e Dúvida como peças num painel que revisita alguns fundamentos da cultura norte-americana, principalmente no que diz respeito a relação dos norte-americanos com eles mesmos e com os estrangeiros.

Film Review Gran Torino

No topo do painel coloquemos Gran Torino, filme de Clint Eastwood que conta a história de um veterano da guerra da Coréia, morador do mesmo bairro há algumas décadas, pouco afeito à religião e que trabalhou durante 50 anos numa fábrica da Ford. A ação ocorre em torno de sua incompreensão a respeito do lugar que o mundo se transformou enquanto ele criava os filhos e montava carros. Tomado por preconceitos arraigados numa moral patriarcal e ultranacionalista ele precisará recriar as suas relações com o mundo ‘exterior à sua propriedade’ após a morte da esposa. O mais interessante é que o personagem interpretado e dirigido pelo próprio Eastwood consegue manter-se fiel aos seus valores e aprender algumas lições, além de servir como um avô que faz a ponte entre um mundo de décadas passadas com a realidade dos jovens de hoje, explicando um pouco sobre o humor, a amizade e o respeito à moda americana. Perceba a relação que o roteiro cria na referência do bairro suburbano como um lugar de conflitos entre imigrantes, latinos, negros e brancos, todos vivendo num clima de tensão confusa e generalizada tornando desastrosos os relacionamentos, onde a negação do outro está fortemente relacionado à sobrevivência. 

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Neste ponto agregamos ao painel o filme Dúvida. Dirigido por John Patrick Shanley, o filme é a transposição de uma peça teatral homônima também escrita por ele. A história se passa numa escola católica do Bronx/Nova Iorque onde a intolerância e a falta de abertura para diálogos sem preconceitos alimentados pela Irmã Aloysius (Meryl Streep) gera um processo de caça a um padre (interpretado por Phillip Seymour Hoffma). Baseada apenas em sua própria consciência e interpretação de fatos conhecidos pela metade, a irmã julga o padre por um suposto abuso a um aluno negro recém-chegado à escola. Sem medir esforços para provar o incidente e também apegada a idéia de não voltar atrás ou reconhecer-se errada, a freira extrapola os seus próprios limites de moralidade. Um bom ponto do filme é que a dúvida permanece sem resposta mesmo depois dos créditos.

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Foi Apenas Um Sonho fica então na base do nosso painel e trata o american way of life ainda em sua fase de gestação. O diretor Sam Medes que já havia falado desse sonho americano em sua fase decadente com o bonito Beleza Americana, dirige agora a própria esposa, Kate Winslet, que junto com Leonardo Di Caprio forma o casal Wheeler. Jovens, bonitos e ainda apaixonados os dois são admirados pela vizinhança como símbolo da vitória desse modelo familiar aparentemente perfeito e recém-nascido. Winslet se sai muito bem no papel da esposa cujo brilho de viver vai se apagando com o passar das cenas. Mas o melhor papel fica com Michael Shannon: o filho da vizinha que acaba de deixar uma instituição psiquiátrica é o único que se demonstra furioso diante das encenações mentirosas de felicidade e fala abertamente sobre a hipocrisia que resguarda a verdadeira realidade dessas relações escondida sob os móveis e as roupas impecáveis.

Parece então que os estúdios resolveram apostar em filmes que tocam essas delicadas questões através de várias leituras possíveis, dando assim espaços para reflexões mais redondas e não tão superficiais. Alguns dizem ser essa uma tentativa dos americanos admitirem suas falhas e pedirem desculpas, como num julgamento sem juízes. Prefiro pensar que eles finalmente resolveram mostra-se humanos e não mais super-heróis.

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