10 de janeiro 2009 · Tags:3namassa, carlos zéfiro, céu, china, coletivo instituto, geanine marques, humaitá pra peixe, karine carvalho, leandra leal, let's make love and listen, lirinha, little joy, lourdes da luz, mamelo soudsystem, milo manara, na confraria das sedutoras, nação zumbi, pitty, rorigo amarante, sala baden powell, serge gainsbourg, simone spoladore, thalma de freitas
Dentro da programação do Festival Humaitá Pra Peixe que rola aqui no Rio há 15 anos botando na mesa uma série de bandas que merecem ser conhecidas e degustadas, ontem rolou a noite de estréia da versão 2009 com show do 3namassa, projeto que mistura Pupilo e Dengue (respectivamente baterista e baixista do Nação Zumbi) e Rica Amabis (MPC e teclados, e do coletivo Instituto). O primeiro álbum dos caras – Na Confraria das Sedutoras – me conquistou pela proposta bonita: chamar uma série de compositores “novos” (Rodrigo Amarante, China e Lirinha, pra citar alguns) pra escreverem letras sob a ótica feminina, com um toque Serge Gainsbourg, e convidar várias garotas legais pra interpretá-las. Entre elas, Thalma de Oliveira, Céu e Pitty (cantoras que já trazem boa bagagem no circuito musical) além de abrir espaço pra que novas garotas legais sejam conhecidas, como Karine Carvalho e Lurdez da Luz do Mamelo Soundsystem. Colocando ainda Alice Braga, Simone Spoladore e Leandra Leal para mostrarem outras facetas. E é por aqui que o projeto, de alguma forma, faz uma ponte entre música e cinema. Tanto que o show ao vivo é intercalado com videoclipes e traz na concepção referências visuais ligadas também ao trabalho de gente como Carlos Zéfiro e Milo Manara, cartunistas que travaram essa discussão sensual-instigante sobre a relação homem-mulher, que nem o Serge. É cinema, música, e erotismo delicado, tudo numa coisa só!

Se o álbum já é uma delícia de ser escutado, o show transcorre na mesma vibe: é impossível não pegar carona no groove e querer dançar. Mesmo sentada lá na Sala Baden Powell, dei um jeito e balancei seguindo à cadência dos caras e das gurias. Thalma de Freitas deu aquele tom diva-do-vozeirão, Lourdes da Luz esbanjou atitude, Geanine Marques mostrou voz forte aliada à timidez, enquanto Karine Carvalho encheu de doçura o teatro e fechou o show com beleza que é aquela música chamada Tatuí. O resultado foi mágico: vários casais pegando carona no barquinho do amor e trocando beijinhos, que lindo!
Redundâncias à parte, não dá pra deixar passar em branco: a atmosfera musical montada pela bateria instintiva do Pupilo, o super-baixo do Dengue, as intervenções do Amabis e a guitarra do Júnior Boca levaram o público à um nível acima e – pelo menos pra mim – sair de lá pisando em algodão foi a recompensa mais massa do dia (sem trocadilhos, ok).
E pra ver como 3namassa pode ser cinema também:
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O negócio é começar agitando uma felicidadezinha e pensar no resto depois: ou seja, Let’s Make Love And Listen 3namassa, NOW!
19 de dezembro 2007 · Tags:catálogo, giulia gam, josé celso martinez, junio barreto, lirinha, lírio ferreira, maconha, murilo salles, recife, road-movie, selton mello
(um dos filmes mais divertidos que vi nesse ano de 2.007 da era ocidental-judaico-cristã)
O mais importante é o fator acochativo: um nordeste pop é possível!
Um road-movie no sertão nordestino! Não, não pense assim! O árido do movie existe sim. Tem nordeste por todo lado. Tem messianismo, drogas, sexo. E tem um final que compromete o conjunto da obra. Mas tem o Selton Mello (que eu arriscaria colocar num patamar de muso do mais recente cinema nacional) com uma barriga nada invejável!
O que Lírio Ferreira (responsável também por Baile Perfumado, 1997) nos mostra é um filme que evoca o tempo/clima a todo momento, até mesmo na ocupação de seu desfocado personagem principal, o homem do tempo que é celebridade na cidade do interior pernambucano na qual nasceu. E no entanto o clima árido é só pretexto para um texto afinado e pop que se contrapõe ao discurso duro e conservador daqueles que resguardam a hierarquia e continuidade de uma família e de um povo clássico que sobreviveu as idas e vindas de uma história seca.
Vamos à sinopse: Jonas (Guilherme Weber) é o ‘homem do tempo’ de um telejornal veiculado em rede nacional. Ele vive mais um dia na vida quando recebe a notícia de que seu pai, Lázaro (numa participação sempre interessante de Paulo César Pereio), fora assassinado e que ele, Jonas, é esperado no velório, o que implica o retorno a sua cidade natal, um lugar perdido no meio do estado de Pernambuco ao qual ele aparentemente está desvinculado, pelo menos até aquele momento. Em sua viagem, Jonas é seguido de perto por um trio de amigos, Vera (Mariana Lima), Falcão (Gustavo Falcão) e Bob (Selton Mello) que não sabem bem o porquê, mas partem atrás do amigo com a idéia de lhe prestar apoio neste momento difícil; e também encontra Soledad (Giulia Gam) uma videomaker que vem pesquisando os diferentes discursos produzidos pelos nordestinos a respeito da água.
Ao chegar a seu destino, Jonas se vê pressionado por sua avó a assumir as responsabilidades pela família e ameaçado por dois tios postiços (Matheus Nachtergaele e Aramis Trindade) a abdicar de seus direitos e deixar que eles resolvam a questão do assassinato.
Agora um parêntese dedicado ao personagem de Guilherme Weber: quando nas cenas iniciais do filme, Jonas aparece em segundo plano, parecendo menos importante que o objetos que o cercam, inicialmente pensei que se tratasse de algum mistério reservado ao personagem. Mas no decorrer do filme a história de Jonas me pareceu mais pretexto do que história principal. E talvez seu desfocamento inicial tenha sido um sutil toque do diretor a esse respeito.
Penso que o filme quis mostrar que o nordeste é um reservatório de cultura pop a ser explorado e que além do universo sempre mostrado do sofrimento dos nordestinos, lá também existem índios que já nem teimam em reivindicar pra si o estatuto de primeiros habitantes, mas que se entristecem em serem tão poucos os que conhecem sua vasta cultura: pra quem deixar as receitas de chás? Que lá ainda persistem idéias mágicas ligadas ao messianismo e personagens como Meu Velho (muito bem interpretado por José Celso Martinez Corrêa), que se diz o primeiro homem a morar naquela região, aquele cuja tarefa designada por deus foi a de organizar o lugar para a habitação do homem e resguardar o seu segredo mais secreto de todos: a magia da água! E dentro ainda de questões míticas, como um lugar onde se consegue um dos melhores fumos do país. E penso que é nessa mistura de um universo mítico-religioso onde índios ainda sofrem preconceitos e oligarquias familiares antigas tendem a trocar o algodão pela maconha (muito mais rentável hoje em dia) que Lírio Ferreira propõe um nordeste diferente, com bailes regados a Renato e Seus Blue Caps que embalam jovens em busca de aventura e algum fumo. Uma mistura que coloca o nordeste não no passado, mas no presente.
Destaco algumas cenas, como a que o personagem de Selton Mello nos explica em detalhes como produzir um ‘baseado’; o depoimento de Meu Velho à Soledad; e o transe de Jonas. A força do filme que está mesmo nos personagens ditos secundários: Wedja (Suyane Moreira) a bela índia que é pivô do assassinato, de muitos ciúmes e algum desejo. Zé Dumont com o seu Zé Elétrico encarna com precisão alguém que conhece bem aquele lugar e que busca a adaptação a cada nova realidade que surge sem perder a sua essência. E o trio formado por Mariana Lima, Gustavo Falcão e Selton Mello que garantem os momentos mais divertidos do filme, com suas discussões irrelevantes, seus grandes silêncios, e sua euforia, tudo embalado por uma amizade que parece tão verdadeira quanto o sotaque de Mariana (e isso não é uma crítica ruim).
O que o Árido Movie nos fica devendo é um final menos confuso e mais elaborado, pois o mínimo que se espera depois de um filme como esse é um final condizente.
Bonita mesmo é a fotografia de Murilo Salles embalada por músicos como Otto e Junio Barreto, usados aí pra demonstrar e reiterar que o nordeste ainda existe e como todo ser vivo, é mutante e traz em sua essência o novo e o velho.