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na periferia da cinelândia

O Protocolo de Rebobine Por Favor

Ou a sensibilidade pulsante: Michel Gondry não quer ensinar a fazer cinema.

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Semana passada estreou nos cinemas brasileiros o novo filme do diretor francês Michel Gondry, e eu não vou repetir aqui uma lista dos videoclipes que ele realizou antes de seu primeiro trabalho como diretor de cinema em Natureza Quase Humana. Acontece que vários fatos associados a esse lançamento me fizeram parar para pensar. Além do filme, Rebobine Por Favor deu origem a uma exposição interativa – que ainda está rolando no MIS-SP – e também promoveu o lançamento de um livro cujo título, traduzido a grosso modo, seria Você vai gostar desse filme porque você está/é (n)ele: O Protocolo de Rebobine Por Favor. A quantidade de cópias autografadas também não está ali à toa: apenas 50 cópias (Será que alguém que comprou pode me emprestar? Juro que devolvo!)

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Falando um pouquinho da exposição, ela acontece através da interação do público que, se inscrevendo pelo site oficial, agendará uma visita guiada através de vários cenários e objetos usados no filme que dá nome a mostra, além de um brechozinho a disposição para composição do que seria a sensibilidade de um novo filme, pois ao final de sua participação você terá feito um filme, bom ou ruim. Ainda existe mais uma questão que é a da participação não programada na exposição: se você aparecer por lá é só pedir para participar de grupos que estejam por lá gravando, e é bom deixar claro que a intenção é ser gentil, participe!

O que Gondry vem vendendo aqui como idéia é a questão da força dos coletivos não apenas como criadores de conteúdo, mas como realizadores de algo materialmente interessante. No ajuntamento de pessoas, cada uma entra com o que sabe fazer melhor e todos ganham um produto coletivamente realizado, sem essas cafonices de exigir a autoria para si. Vitor Pirralho, meu amigo, já disse: A Devoração é Crítica e o Legado é Universal. E Gondry também diz: entre ali e pegue tudo que você precisar, mas traga um produto novo pra nós!

Falando um pouco do filme, perceba a construção da idéia: A história fala de dois amigos interpretados por Mos Def e Jack Black e sobre a locadora de VHS do Sr. Fletcher (Danny Glover). A locadora fica num prédio antigo que, segundo o Sr. Fletcher, é histórico porque a maior lenda do jazz nasceu ali, Fats Waller. Um dia Fletcher sai em busca de salvar sua locadora da falência e deixa Def e Black tomando conta do lugar. Depois de uma situação engraçada, o personagem de Black consegue apagar todas as fitas de VHS e nenhum filme poderá ser alugado. Quando eles finalmente descobrem o problema que tem nas mãos tentam todas as soluções sensatas para resolvê-los, como pedir a fita de Conduzindo Miss Daisy emprestada em outra locadora por exemplo. Mas justamente assim é que eles percebem que pedir as fitas emprestadas não vai funcionar pra sempre: é preciso colocar a mão na massa.

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E a mensagem de Gondry nem fica presa apenas à mensagem maior do filme, ela aparece em todos os cantos. Quando Jerry (Jack Black) passa pela câmera enquanto está magnetizado pelo choque que levou do gerador, Gondry usa um efeito de pós-produção que simula a interferência na própria câmera que filma o filme. Será que dá pra chamar de boba essa sensibilidade ou isso é pura e despretensiosamente uma vontade de educar visualmente as pessoas? Da mesma forma, Jerry se irrita com uma cliente na loja simplesmente porque ela cobra a ordenação alfabética das fitas, e ele irritado por reconhecer nisso uma preocupação boba, solta os cachorros e é rude com ela. Ou seja, até mesmo quando o tom despretensioso do diálogo parece apenas aborrecido, o que aparece na big picture são críticas à sociedade, num combate que Gondry tomou pra ele desde sempre: a desumanização gradativa dos homens e o processo de desvinculação que nos impede de correr riscos e de nos associar aos outros são os temas recorrentes, seja no respeito a diferença na relação com o outro (Natureza Quase Humana), em admitir que se ama alguém para além de seus defeitos (Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças) ou na vontade desesperada de um homem em levar alguém para dentro de seu mundo (Sonhando Acordado).

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Gondry fala sobre como um comportamento lúdico pode despertar o interesse de alguém em fazer algo, talvez cinema e porque não? Com Rebobine Por Favor o diretor parece encerrar um ciclo, dizendo que uma comunidade pode se articular para registrar de si mesma a imagem com a qual pretende ser marcada ou simplesmente por acreditar que o cinema é algo encantador porque promove  a ultrapassagem das barreiras dos sonhos, fazendo então com que as barreiras da realidade fiquem pequeninas. Como na famosa foto da Clementine com o Joel ali em cima, eles parecem dizer: o mundo está rachando e nós vamos ficar aqui deitados?

The Science of Sleep, 2006 (Sonhando Acordado)

E se os seus sonhos atropelassem a realidade?

Esse é o mais recente trabalho de Michel Gondry, diretor também do querido Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, que de tão querido, foi um dos motivos que tornaram ainda maiores as expectativas a respeito de Sonhando Acordado.

Acontece que grandes expectativas podem gerar também grandes decepções. Das pessoas que já assistiram, muitas foram as que disseram não ser ele grande coisa; mais um filme e ponto. Então que terei de fazer um caminho mais longo para me explicar.

Como qualifico um filme entre bom e ruim? Primeiro: se ao final dele você for capaz de, em uma frase ou parágrafo defini-lo, ponto! Ao menos ele cumpriu o papel que se propôs cumprir e nós entendemos isso com todas as letras. Segundo: os atores. Bons atores em bons personagens são aqueles que parecem totalmente confortáveis na roupa que vestem. Falam, andam, riem. Como eu ou você. Terceiro: Se o filme nos mostra uma diferente perspectiva de roteiro, uma nova forma de narrativa ou utiliza elementos insólitos para compor sua história, marco mais um ponto em minha cartela. Bem, existem ainda os filmes excepcionais. Mas para esses geralmente não há cartela, nem padrões.

Agora analisando, Sonhando Acordado talvez não seja dos títulos mais felizes, já que Stéphane – o personagem de Gael Garcia Bernal – apesar de viver sonhos lúcidos, sofre também com sua imaginação que o impede de interagir bem com a realidade, e, consciente do problema, empreende uma espécie de investigação, criando assim uma ciência do sono (ou uma science of sleep), com direito inclusive a um talk-show onírico onde discorre sobre receitas de sonhos, recebe convidados, tudo na tentativa de descobri um porquê. Aqui já poderíamos marcar um “x” na cartelinha devido à inventividade do roteirista-diretor, que cria imagens de sonho muito bonitas dentro do mundo de Stéphane. Aliás, personagem um tanto complexo, pois além de sonhar acordado, é tímido, e criou em torno de si esse mundo tão distante do real, que ao realmente apaixonar-se por sua vizinha-quase-xará, Stephanie (A bela Charlotte Gainsbourg), é que percebe que deve encontrar uma solução para seu problema.

Outra boa coisa são os cenários: Os Alpes em um tipo de algodão; a janela da sala do chefe que serve de tela para vários devaneios; o cenário do talk-show, com suas paredes de caixas de ovos e seu piano. E alguns artifícios, como o cavalo-de-pano de Stephanie, a vizinha, que ganha vida; a máquina de controlar o tempo, que antecipa ou atrasa alguns segundos da vida; a água de papel que escapa pela torneira. Todos esses detalhes remontam a uma cuidadosa produção em total sintonia com o roteiro. Mais um ponto na cartela.

Outro ponto vai para os sonhos de Stéphane em si, que são cheios de imaginatividade, beleza e graça, porque para ele acordar é sempre chato. E sonhar é sempre lúdico.

 

Sobre as atuações é justo dizer que Charlotte Gainsbourg está dentro da média, mostrando-se como uma mulher francesa, de grande sensibilidade, mas sem paciência pra entender porque o vizinho aparece nu no corredor e lhe passa um bilhete por baixo da porta ou porque lhe cobra algumas atitudes que ela desconhece. Já Gael, apesar de esforçar-se, parece não ter o carisma necessário para o papel. A idéia que tive é que nos momentos em que ele deveria se mostrar mais carismático, faltou-lhe o timing. No entanto, foi competente em mostrar um protagonista inocente, ensimesmado e confuso. Ah, e bonito também.

Mas quem esperava encontrar na dupla Gael-Charlotte mais um casal fictício complicado e perfeitinho, preferiu lembrar-se da dupla Jim- Kate. Ou Joel e Clementine.

Veremos agora, quantas marcações fiz em minha cartela… Umas tantas. Algumas consideráveis.

E você, quantos “x” marcou?

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