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na periferia da cinelândia

*Citizen Langlois

Não se trata só de falar em preservação audiovisual e nascimento das cinematecas, aliás, para Henri Langlois não se tratava mesmo: era mais do que isso. Tem essa coisa sobre ele ter visto sua cidade natal em chamas enquanto fugia em um barco pedindo a alguém que fotografasse tudo o que eles iam deixando pra trás. Banguncemos agora essa tal linha do tempo e deixemos o menino Langlois em paz, chorando sua perda.

É fato que nem os Lumiére acreditavam na potencialidade comercial – e muito menos artística – do cinematógrafo, e talvez por isso os espaços de exibição pipocassem em todas as feiras como uma das diversões mais baratas e, portanto populares do início do século XX. Os rolos com as imagens animadas duravam tanto quanto sua procura e rentabilidade nestas mesmas feiras permitissem, pra logo depois serem descartadas transformando-se depois de derretidas em coisas como esmalte e graxa de sapato. Então é aqui que pegamos nosso personagem de novo pela mão. Nascido em 1914 na Turquia, sua trajetória confunde-se com a evolução do cinema como algo além de um divertimento descartável.

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Aos 20 anos Langlois e seu amigo Georges Franju começaram uma verdadeira caça aos filmes mudos que já há muito desapareciam do mapa de exibições devido, entre outras coisas, ao surgimento dos filmes sonoros e ao descaso com qualquer valor a respeito deles. Enchendo então a banheira da casa dos pais eles foram aos poucos conhecendo pessoas que simpatizaram com seu empreendimento e em 1936, os dois garotos e mais Jean Mitry fundaram a Cinemateca Francesa.

Como nos conta a história, Langlois acreditava muito mais na exibição do que na preservação pura e simples, no que era severamente reprovado por muitos que buscavam legitimar já naquela época algumas práticas a respeito da preservação da memória audiovisual. Vale inclusive reproduzir a piadinha contada pelo professor e que diz respeito à fundação em 1935 do National Film Archive (hoje conhecido como National Film and Sound Archive) – ligada ao British Film Institute – e cujo fundador, Ernest Lindgren, pregava o arquivamento do maior número possível de filmes sem, no entanto, exibi-los. Assim é que a sigla NFA, para alguns, sinalizava a idéia “No Film Avaliable”.

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Certo ou errado, também é sabido que foi em meio à riqueza das exibições da Cinemateca Francesa e das conversas ao final das sessões que surgiram idéias como o conceito de cinéfilo e esboços da nouvelle vague. O Vitor Angelo situou bem a importância da cinemateca e do Caso Langlois na criação cinematográfica que precedeu os conflitos de maio de 1968, e citou também a recriação feita em Os Sonhadores sobre as manifestações a respeito da retirada dele do comando da instituição.

Não vale a pena falar do que o ‘pessoal da oposição’ dizia sobre o caráter e as manias de Langlois. Vale sim frisar que antes mesmo de saber o que era ser cinéfilo ele ajudou a criar um ambiente para o florescimento de idéias e discussões que contribuíram para que o fazer cinema conquistasse um espaço só seu entre as já clássicas expressões artísticas, vide literatura e artes plásticas, e que numa época em que o compartilhamento e popularização do acesso a bens culturais está sendo tão discutida, suas ações ajudam e muito a fomentar o debate. Agora é ir aos poucos juntando as várias peças desse quebra-cabeça imaginário, repensando mais uma vez o fazer-cinema e esperando que nova vaga há de surgir por aí.

*Texto sobre o documentário Citizen Langlois, de 1994.

O Protocolo de Rebobine Por Favor

Ou a sensibilidade pulsante: Michel Gondry não quer ensinar a fazer cinema.

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Semana passada estreou nos cinemas brasileiros o novo filme do diretor francês Michel Gondry, e eu não vou repetir aqui uma lista dos videoclipes que ele realizou antes de seu primeiro trabalho como diretor de cinema em Natureza Quase Humana. Acontece que vários fatos associados a esse lançamento me fizeram parar para pensar. Além do filme, Rebobine Por Favor deu origem a uma exposição interativa – que ainda está rolando no MIS-SP – e também promoveu o lançamento de um livro cujo título, traduzido a grosso modo, seria Você vai gostar desse filme porque você está/é (n)ele: O Protocolo de Rebobine Por Favor. A quantidade de cópias autografadas também não está ali à toa: apenas 50 cópias (Será que alguém que comprou pode me emprestar? Juro que devolvo!)

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Falando um pouquinho da exposição, ela acontece através da interação do público que, se inscrevendo pelo site oficial, agendará uma visita guiada através de vários cenários e objetos usados no filme que dá nome a mostra, além de um brechozinho a disposição para composição do que seria a sensibilidade de um novo filme, pois ao final de sua participação você terá feito um filme, bom ou ruim. Ainda existe mais uma questão que é a da participação não programada na exposição: se você aparecer por lá é só pedir para participar de grupos que estejam por lá gravando, e é bom deixar claro que a intenção é ser gentil, participe!

O que Gondry vem vendendo aqui como idéia é a questão da força dos coletivos não apenas como criadores de conteúdo, mas como realizadores de algo materialmente interessante. No ajuntamento de pessoas, cada uma entra com o que sabe fazer melhor e todos ganham um produto coletivamente realizado, sem essas cafonices de exigir a autoria para si. Vitor Pirralho, meu amigo, já disse: A Devoração é Crítica e o Legado é Universal. E Gondry também diz: entre ali e pegue tudo que você precisar, mas traga um produto novo pra nós!

Falando um pouco do filme, perceba a construção da idéia: A história fala de dois amigos interpretados por Mos Def e Jack Black e sobre a locadora de VHS do Sr. Fletcher (Danny Glover). A locadora fica num prédio antigo que, segundo o Sr. Fletcher, é histórico porque a maior lenda do jazz nasceu ali, Fats Waller. Um dia Fletcher sai em busca de salvar sua locadora da falência e deixa Def e Black tomando conta do lugar. Depois de uma situação engraçada, o personagem de Black consegue apagar todas as fitas de VHS e nenhum filme poderá ser alugado. Quando eles finalmente descobrem o problema que tem nas mãos tentam todas as soluções sensatas para resolvê-los, como pedir a fita de Conduzindo Miss Daisy emprestada em outra locadora por exemplo. Mas justamente assim é que eles percebem que pedir as fitas emprestadas não vai funcionar pra sempre: é preciso colocar a mão na massa.

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E a mensagem de Gondry nem fica presa apenas à mensagem maior do filme, ela aparece em todos os cantos. Quando Jerry (Jack Black) passa pela câmera enquanto está magnetizado pelo choque que levou do gerador, Gondry usa um efeito de pós-produção que simula a interferência na própria câmera que filma o filme. Será que dá pra chamar de boba essa sensibilidade ou isso é pura e despretensiosamente uma vontade de educar visualmente as pessoas? Da mesma forma, Jerry se irrita com uma cliente na loja simplesmente porque ela cobra a ordenação alfabética das fitas, e ele irritado por reconhecer nisso uma preocupação boba, solta os cachorros e é rude com ela. Ou seja, até mesmo quando o tom despretensioso do diálogo parece apenas aborrecido, o que aparece na big picture são críticas à sociedade, num combate que Gondry tomou pra ele desde sempre: a desumanização gradativa dos homens e o processo de desvinculação que nos impede de correr riscos e de nos associar aos outros são os temas recorrentes, seja no respeito a diferença na relação com o outro (Natureza Quase Humana), em admitir que se ama alguém para além de seus defeitos (Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças) ou na vontade desesperada de um homem em levar alguém para dentro de seu mundo (Sonhando Acordado).

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Gondry fala sobre como um comportamento lúdico pode despertar o interesse de alguém em fazer algo, talvez cinema e porque não? Com Rebobine Por Favor o diretor parece encerrar um ciclo, dizendo que uma comunidade pode se articular para registrar de si mesma a imagem com a qual pretende ser marcada ou simplesmente por acreditar que o cinema é algo encantador porque promove  a ultrapassagem das barreiras dos sonhos, fazendo então com que as barreiras da realidade fiquem pequeninas. Como na famosa foto da Clementine com o Joel ali em cima, eles parecem dizer: o mundo está rachando e nós vamos ficar aqui deitados?

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