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na periferia da cinelândia

Árido Movie, 2006

(um dos filmes mais divertidos que vi nesse ano de 2.007 da era ocidental-judaico-cristã)

O mais importante é o fator acochativo: um nordeste pop é possível!

Um road-movie no sertão nordestino! Não, não pense assim! O árido do movie existe sim. Tem nordeste por todo lado. Tem messianismo, drogas, sexo. E tem um final que compromete o conjunto da obra. Mas tem o Selton Mello (que eu arriscaria colocar num patamar de muso do mais recente cinema nacional) com uma barriga nada invejável!

O que Lírio Ferreira (responsável também por Baile Perfumado, 1997) nos mostra é um filme que evoca o tempo/clima a todo momento, até mesmo na ocupação de seu desfocado personagem principal, o homem do tempo que é celebridade na cidade do interior pernambucano na qual nasceu. E no entanto o clima árido é só pretexto para um texto afinado e pop que se contrapõe ao discurso duro e conservador daqueles que resguardam a hierarquia e continuidade de uma família e de um povo clássico que sobreviveu as idas e vindas de uma história seca.

Vamos à sinopse: Jonas (Guilherme Weber) é o ‘homem do tempo’ de um telejornal veiculado em rede nacional. Ele vive mais um dia na vida quando recebe a notícia de que seu pai, Lázaro (numa participação sempre interessante de Paulo César Pereio), fora assassinado e que ele, Jonas, é esperado no velório, o que implica o retorno a sua cidade natal, um lugar perdido no meio do estado de Pernambuco ao qual ele aparentemente está desvinculado, pelo menos até aquele momento. Em sua viagem, Jonas é seguido de perto por um trio de amigos, Vera (Mariana Lima), Falcão (Gustavo Falcão) e Bob (Selton Mello) que não sabem bem o porquê, mas partem atrás do amigo com a idéia de lhe prestar apoio neste momento difícil; e também encontra Soledad (Giulia Gam) uma videomaker que vem pesquisando os diferentes discursos produzidos pelos nordestinos a respeito da água.

Ao chegar a seu destino, Jonas se vê pressionado por sua avó a assumir as responsabilidades pela família e ameaçado por dois tios postiços (Matheus Nachtergaele e Aramis Trindade) a abdicar de seus direitos e deixar que eles resolvam a questão do assassinato.

Agora um parêntese dedicado ao personagem de Guilherme Weber: quando nas cenas iniciais do filme, Jonas aparece em segundo plano, parecendo menos importante que o objetos que o cercam, inicialmente pensei que se tratasse de algum mistério reservado ao personagem. Mas no decorrer do filme a história de Jonas me pareceu mais pretexto do que história principal. E talvez seu desfocamento inicial tenha sido um sutil toque do diretor a esse respeito.

Penso que o filme quis mostrar que o nordeste é um reservatório de cultura pop a ser explorado e que além do universo sempre mostrado do sofrimento dos nordestinos, lá também existem índios que já nem teimam em reivindicar pra si o estatuto de primeiros habitantes, mas que se entristecem em serem tão poucos os que conhecem sua vasta cultura: pra quem deixar as receitas de chás? Que lá ainda persistem idéias mágicas ligadas ao messianismo e personagens como Meu Velho (muito bem interpretado por José Celso Martinez Corrêa), que se diz o primeiro homem a morar naquela região, aquele cuja tarefa designada por deus foi a de organizar o lugar para a habitação do homem e resguardar o seu segredo mais secreto de todos: a magia da água! E dentro ainda de questões míticas, como um lugar onde se consegue um dos melhores fumos do país. E penso que é nessa mistura de um universo mítico-religioso onde índios ainda sofrem preconceitos e oligarquias familiares antigas tendem a trocar o algodão pela maconha (muito mais rentável hoje em dia) que Lírio Ferreira propõe um nordeste diferente, com bailes regados a Renato e Seus Blue Caps que embalam jovens em busca de aventura e algum fumo. Uma mistura que coloca o nordeste não no passado, mas no presente.

Destaco algumas cenas, como a que o personagem de Selton Mello nos explica em detalhes como produzir um ‘baseado’; o depoimento de Meu Velho à Soledad; e o transe de Jonas. A força do filme que está mesmo nos personagens ditos secundários: Wedja (Suyane Moreira) a bela índia que é pivô do assassinato, de muitos ciúmes e algum desejo. Zé Dumont com o seu Zé Elétrico encarna com precisão alguém que conhece bem aquele lugar e que busca a adaptação a cada nova realidade que surge sem perder a sua essência. E o trio formado por Mariana Lima, Gustavo Falcão e Selton Mello que garantem os momentos mais divertidos do filme, com suas discussões irrelevantes, seus grandes silêncios, e sua euforia, tudo embalado por uma amizade que parece tão verdadeira quanto o sotaque de Mariana (e isso não é uma crítica ruim).

O que o Árido Movie nos fica devendo é um final menos confuso e mais elaborado, pois o mínimo que se espera depois de um filme como esse é um final condizente.

Bonita mesmo é a fotografia de Murilo Salles embalada por músicos como Otto e Junio Barreto, usados aí pra demonstrar e reiterar que o nordeste ainda existe e como todo ser vivo, é mutante e traz em sua essência o novo e o velho.

Na coletiva de “Meu Nome Não é Johnny”

Coletivas são legais. Nelas é que se pode debater a respeito da produção de um filme, aproveitando pra entender como se faz cinema, falar sobre políticas públicas, e mais um monte de assuntos que surgem, e talvez até nem devessem surgir. Pra quem não sabe nada sobre o filme, pode dar uma olhada no site oficial ou no blog de João Estrella, o personagem que vivenciou a trama na escala do real.Em poucas palavras, o filme conta a história do carioca João Estrella e seu envolvimento com o consumo/revenda de ’substâncias ilícitas’. Isso no Rio-de-Janeiro-da-década-de-oitenta, que quer queiram muitos, quer não queiram outros tantos, foi o lugar e o período do surgimento de inúmeras bandas brasileiras posteriormente consagradas. Aliás, segundo Selton Mello, João é um músico que desviou-se do caminho, mas conseguiu reencontrá-lo.

A entrevista começa com equipe reduzida: Cléo Pires acabou participando apenas da sessão de fotos , saindo mais cedo devido à intensa rotina que tem envolvido o lançamento do filme (parece que a equipe esteve em São Paulo ontem).

Selton é simpático, brinca com todo mundo, mas parece tímido – ou cansado – a ponto de me deixar sem graça na hora de mirar a maquininha de retratos. Bom, mas ele deve saber como lidar com isso e vai falando enquanto alguns fotografam: de acordo com o que ele conta, seu envolvimento com a produção ultrapassou muito a relação de ‘ator’ e ele opiniou em alguns testes de elenco, sugeriu nomes e indicou o diretor. Mas deve ser fácil confiar na experência de Selton tanto quanto ele parece gostar de misturar-se no filme ‘até os ossos’, com perdão da hiperbóle. Ele aproveitou também pra confirmar sua estréia na direção, num filme chamado “Feliz Natal” e cujo protagnista será Leonardo Medeiros, que esteve bem na última vez que o vi.

Não, não! Dessa vez Selton disse que não atua.

Sobre um momento da produção que ele destacaria, cita a cena do julgamento, para qual solicitou uns minutos a sós com João, ouvindo atentamente o relato daquela situação. Ao gravar a cena, o ator disse não ter seguindo roteiro algum e sim se esforçado para relembrar a forma como João descreveu o momento, suas palavras, a emoção de estar diante de sua mãe, e o fato de ter acabado por transformar aquilo numa possibilidade de auto-reflexão sobre suas ações, e a cena acabou sendo gravada num take só. Ele enfatiza a força dramática dessa cena sinalizando-a como uma das mais importantes em sua carreira.

João Estrella também fala de importâncias: diz quão cansativo foi reviver essas emoções, fosse no set ou na primeira exibição pública do filme na qual ele esteve presente. Emocionar-se de novo e mais uma vez.

As pessoas atrapalham a coisa toda levantando questões contundentes, como perguntando pro Selton se ele estava’gordinho mesmo’ ou era só impressão ou ainda buscando comparações entre “Meu Nome…” e “Tropa de Elite”

A mensagem que os dois deixam pro final é clara e simples: Assitam cinema nacional!

Acho que é uma boa dica…

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